Lavradores são assassinados no Pará
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terça-feira, 29 de dezembro de 1998
Agência Estado 
Cerca de 15 homens armados mataram, anteontem, com tiros no peito e cabeça, os lavradores Francisco Fonseca dos Santos e José Antonio de Souza. Ambos ocupavam, junto com 150 famílias, há mais de um ano, o Assentamento Palmares I, na Fazenda Carajás, em Parauapebas, no sul do Pará. Três outros lavradores saíram feridos durante a emboscada. Um outro conseguiu fugir embrenhando-se na mata.
Em apenas uma semana, quatro pessoas foram assassinadas na luta pela terra no sul do Estado. Este ano, 12 pessoas foram mortas no Pará em conflitos fundiários.
Os feridos no atentado na Fazenda Carajás foram medicados em hospitais da região e prestaram depoimento na delegacia de Parauapebas, onde permanecem sob proteção policial pois temem ser mortos. Policiais civis e militares estiveram ontem na fazenda para recolher os cadáveres de Souza e Santos, que foram levados para Marabá e autopsiados no Instituto Médico Legal.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) disse em nota que o clima na fazenda, que já era tenso, piorou nos últimos dias devido às ameaças que os trabalhadores vinham sofrendo do bando de Waldemar, acusado de liderar o atentado de anteontem.
O lavrador Carlos Lima, uma das testemunhas da emboscada, disse na polícia que os grileiros - liderados por Waldemar - querem expulsar os assentados e as lideranças do MST do local para ficar com a terra e vender os lotes.
Lima contou que os homens chegaram de surpresa, atirando contra os lavradores quando estes recolhiam o gado na fazenda. O pessoal não teve tempo de se proteger das balas. Quem pôde correr entrou no mato e escapou da morte, completou o assentado José Maria Silva.
O escrivão Haroldo Macedo, da polícia de Parauapebas, afirmou que Waldemar e seu bando são conhecidos grileiros de terras na região com várias passagens pela polícia. Ele está sendo processado por invadir fazendas e expulsar à bala quem resiste.
De acordo com Macedo, dia 23 um sem-terra ainda não identificado pela polícia foi morto e teve seu corpo atirado dentro de um poço próximo a uma fazenda na rodovia que liga Parauapebas à Serra dos Carajás.
Na véspera de Natal, os pistoleiros João Ribeiro da Silva, o Presa de Ouro, e Ailton Pereira da Silva, o Maranhão, mataram a tiros o lavrador Antonio Firmino de Carvalho, o Piauí. Eles teriam sido contratados pelo fazendeiro Juvenal Francisco dos Santos, que teria prometido pagar R$ 1,2 mil pelo crime. Os matadores foram presos por policiais do município quando tentavam receber o dinheiro.
O ministro interino de Política Fundiária, Nelson Borges, considerou uma estupidez o assassinato de dois lavradores no assentamento Palmares 1, no sul do Pará. Ele lamenta ter de encerrar com crimes o ano em que as estatísticas de violência no campo caíram e as metas de assentamentos foram superadas no Estado paraense.
Para Borges, o caso é de banditismo. É uma questão de polícia. É bárbaro, repudiou Borges. Ele defendeu a prisão e punição imediatas dos autores desse crime despropositado. Segundo o ministro interino, as ações do governo para combater a violência no campo concentram-se na aceleração do assentamento de famílias. Mas lembra que o governo já está atuando no limite.Dentro dos nossos meios disponíveis não há como fazer isso mais rápido, comentou, citando que as mudanças na legislação já permitem ligeiras desapropriações e imissão do título de posse.
Borges conta que, pelas informações informais repassadas a ele ontem, havia uma disputa entre dois grupos de sem-terra para a escolha das famílias que seriam transferidas de Palmares 1 para Carajás 1. Um dos executados, Francisco Fonseca dos Santos, seria o líder de um dos grupos.


