Brasília, 25 (AE) - O lavrador Severino Francisco José, de 59 anos, vive de colheita em colheita em Unaí (MG). Ele deixou a cidade na noite de ontem (25), com uma velha mala, calça jeans antiga e manchada pela poeira da terra vermelha das plantações e um chinelo de borracha que deixa à mostra os sulcos e os calos do trabalho pesado. Raposo entrou no ônibus que o trouxe para a Marcha dos Cem Mil, na Esplanada dos Ministérios, com a mesma simplicidade que sai de sua casa "humilde" para a "roça".
"Sou lavrador, moço", responde, calmamente, quando lhe penguntam a profissão. "O homem que trabalha na terra e não ganha nada", completa, com igual serenidade. Foi convidado a participar da manifestação pelos representantes do sindicato rural do município onde mora.
"Eles pagaram todas as despesas", confessa. Ele também confessa não saber qual o objetivo da manifestação. Pergunta - Por que o sr. decidiu participar da Marcha dos Cem Mil? Severino Francisco José Raposo - Eu quis participar disso tudo para ver se o preço do gás, da comida e dos remédios param de subir e se consigo mais emprego. Pergunta - Mas o sr. está desempregado? Raposo - Entre uma e outra colheira, a gente fica dois meses, às vezes três, esperando um outro trabalho. Tá muito difícil. Pergunta - O que o sr. ganha é pouco? Raposo - Na colheita, dá para ganhar até 300 reais, mas é muito pouco porque tem de durar dois ou três meses. Pergunta - O sr. sabe que a Marcha dos Cem Mil é para pedir a abertura de um processo e responsabilizar criminalmente o presidente Fernando Henrique Cardoso? Raposo - Se sabe que não sei nada... Pergunta - Como o sr. ficou sabendo da Marcha dos Cem Mil? Raposo - O pessoal do sindicato rural convidou. Pergunta - O sr. acredita que está na hora de o presidente Fernando Henrique Cardoso deixar o cargo? Raposo - Já passou da hora porque o preço está subindo e tem pouco emprego. Pergunta - Em quem o senho votou na última eleição presidencial? Raposo - Sabe que eu não sei?

mockup