Assis, SP, 30 (AE) - É superior a R$ 70 milhões o prejuízo, já consolidado, nas lavouras de soja, milho e cana, cultivados neste verão no Vale do Paranapanema, em consequência da pior estiagem registrada nos últimos anos naquela região. A seca deve atrasar e afetar em até 50% o plantio do milho safrinha, previsto para março, podendo aumentar as perdas dos agricultores em pelo menos R$ 52 milhões.
Os dados divulgados pela Cooperativa dos Cafeicultores de Cândido Mota (Coopermota) são confirmados pelo Escritório de Desenvolvimento Rural (EDR) de Assis, que, em levantamento realizado no dia 7 de janeiro nos 16 municípios por ele atendidos, estimou quebra de 30%, nos 148 mil hectares de soja, de 40%, nos 15 mil hectares de milho e de 10%, nos 135 mil hectares de cana. O Vale do Paranapanema responde por 40% da produção de soja e por 2% do milho de verão no Estado.
Também foram afetadas pela seca, as lavouras de café, mandioca e as pastagens. A estimativa é de que o total dos prejuízos possa chegar a R$ 159 milhões naquela região.
Estiagem - A seca atingiu as áreas produtoras do Vale do Paranapanema entre outubro e janeiro, principal época de cultivo da safra de verão da soja e do milho. De acordo com o Centro de Desenvolvimento do Vale do Paranapanema (CDVale), entidade não-governamental que reúne cooperativas e empresas da região, para uma média histórica de 600 milímetros de chuvas no período, este ano foram registradas precipitações que alcançaram a média de 373 mm.
De acordo com o agrônomo Luiz Antônio Schimitt, gerente-técnico da Coopermota, os efeitos da seca começaram a ser sentidos entre setembro e outubro do ano passado, provocando atrasos e redução na área de plantio do milho. Dos 17 mil hectares inicialmente previstos, segundo ele, foram cultivados apenas 10 mil hectares. O diretor técnico do EDR de Assis, Paulo Arlindo de Oliveira, calcula que foram efetivamente plantados 15 mil hectares.
A estiagem também afetou o plantio dos 148 mil hectares. de soja. Apenas 60% dos produtores conseguiram implantar suas lavouras na época ideal, em novembro.
Os 40% restantes, foram plantados entre dezembro e janeiro, com o aproveitamento da umidade provocada por chuvas isoladas que atingiram a região, especialmente nos dias 13 de dezembro e 15 de janeiro.
A falta de chuvas afetou o desenvolvimento das lavouras, impedindo, no caso da soja e do milho, que as plantas desenvolvessem seu potencial produtivo. Os tratos sanitários também foram prejudicados, favorecendo o surgimento de várias pragas, principalmente a lagarta do cartucho nas lavouras de milho.
De acordo com as estimativas da EDR, para uma média de produção de 106 sacas por alqueire, as lavouras de soja deverão apresentar produtividade entre 60 e 70 sacas por alqueire. No caso do milho, a média de produtividade de 140 sacas por alqueire, deve cair este ano para menos de 90 sacas por alqueire.
A cana, com área plantada de 135 mil hectares apresentou atraso nas rebrotas e baixo desenvolvimento das lavouras, além do ataque de pragas do solo, o que deve provocar a quebra de 10% na produção regional.
Safrinha - A situação dos agricultores do Vale do Paranapanema deve agravar-se este ano porque grande parte dos que atrasaram o plantio da soja poderá perder também a melhor época (até 15 de março) para a semeadura do milho safrinha, cuja área tradicionalmente alcança 140 mil hectares naquela região.
De acordo com o presidente da Coopermota, Edivaldo Del Grande, pelo menos 40% dos produtores de soja, responsáveis por cerca de 60 mil hectares de terras, que formaram suas lavouras entre dezembro e janeiro, somente poderão fazer a colheita a partir de abril, o que praticamente inviabiliza o plantio do milho.
Para evitar esse risco, muitos produtores já começaram a gradear as áreas de soja onde a baixa produtividade já está consolidada, com a finalidade de liberar as terras para o plantio do milho safrinha. O diretor do EDR informou que cerca de mil produtores já comunicaram o sinistro de suas lavouras ao escritório da Companhia de Seguros do Estado de São Paulo (Cosesp) em Assis.
Em São Paulo, a Cosesp confirmou que já recebeu perto de mil comunicacões de sinistros por parte de agricultores do Vale do Paranapanema e, do total, entre 550 e 650 processos já foram instaurados. Na média, a Cosesp vem recebendo entre 25 e 30 comunicações por dia.
O trigo também pode ser uma opção para alguns lavradores
mas segundo Del Grande, a área de plantio, que no ano passado ficou em mil hectares, dificilmente ultrapassará 3 mil hectares na próxima safra. Ele explica que além do desestímulo do preço, a maioria dos produtores não têm infra-estrutura para aquele cultivo.
Perdas - Com uma propriedade de 24 alqueires em Ibirarema, o lavrador José Ribeiro de Andrade acredita que essa foi a pior estiagem que enfrentou nos últimos dez anos. Por causa da seca ele foi obrigado a cultivar praticamente toda sua área com soja, e só no dia 21 de janeiro conseguiu semear 2,5 alqueires de milho.
De acordo com Andrade, entre outubro e 19 de janeiro, sua propriedade recebeu 100 milímetros de chuvas, o equivalente a 17% da média regional. Em consequência, parte da soja não se desenvolveu e está florando com as plantas alcançando 10 centímetros de altura (o normal seria 35 cm) e com poucas vagens nos galhos.
Outro que está acumulando prejuízos é o agricultor Antônio Ireno, que, em três propriedades, mantém 110 alqueires de terras em Cândido Mota, normalmente utilizados para o plantio de soja e milho. Considerado lavrador de alta tecnologia, Ireno diz que nada pode ser feito para reduzir os efeitos da estiagem em suas lavouras. "Desde novembro, choveu cerca de 70 milímetros em minhas terras", informou.
Ele estima que seus prejuízos serão superiores a 50% e admite que dificilmente conseguirá plantar o milho safrinha em tempo adequado.
Chuvas - Pelo menos 60% das áreas cultivadas com soja e milho no Vale do Paranapanema receberam chuvas entre quarta e quinta-feira desta semana, conforme informou a Coopermota. As chuvas caíram de forma irregular, com intensidade oscilando entre 35milímetros e 160 mm.
As precipitações porém, segundo a cooperativa, não reverterão os prejuízos já consolidados da maioria dos agricultores. Mas poderão permitir que em algumas áreas, a soja e o milho semeados tardiamente, obtenham melhor desenvolvimento na fase final do ciclo vegetativo.