Rio, 30 (AE) - Laudo feito por técnicos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) confirmou a utilização de amianto do grupo dos anfibólios - substância cancerígena - no revestimento acústico dos cinemas Leblon 1 e 2, na zona sul do Rio. No relatório o diretor do Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh) da entidade, Hermano Albuquerque, responsável pela análise, recomenda à Secretaria de Estado da Saúde a retirada do produto. Para o trabalho - que só poderá ser feito por técnicos especializados, devido ao risco de exposição ao mineral - seria necessária a interdição dos cinemas.
A possibilidade de contaminação começou a ser investigada pela Fiocruz no dia 21 de julho, quando uma equipe da Secretaria da Saúde recolheu amostras do revestimento das salas de projeção para análise. Na véspera, havia sido publicada reportagem com a relação dos locais da cidade onde teria sido utilizado o produto Limpet - spray com amianto - para o tratamento térmico e acústico de estruturas.
Estudos indicam que o contato prolongado por inalação com o amianto anfibólio - proibido no País desde o início da década - pode causar câncer no pulmão, mesotelioma de pleura (um tumor maligno) e asbestose (doença que provoca a perda progressiva da capacidade respiratória). O laudo da Fiocruz constata a utilização de amianto do tipo tremolita actinolita, que pertence ao grupo dos anfibólios, assim como o amosita.
Risco - O presidente da Associação Brasileira do Amianto (Abra), Milton do Nascimento, criticou a posição da Fiocruz, pela retirada do produto. "Reconheço o resultado do laudo, mas é possível administrar o risco, porque só existe problema quando as fibras (do amianto) estão presentes no ar", afirmou. Nascimento apresentou um relatório segundo o qual o nível de material em suspensão nas salas de projeção "está dentro da normalidade". Segundo ele, o risco da retirada da substância é "tão grande" quanto o da aplicação. "Não há razão para retirar se o material não estiver sendo solto no ambiente; esse é o raciocínio que se usa em saúde pública, do contrário, é uma causa apenas ideológica.", alegou.
Albuquerque questionou a hipótese de uso controlado do local defendida pelo presidente da Abra. "Nada justifica manter essa substância perigosa, que pode se desprender, porque se existe o risco de contaminação, devemos eliminá-lo." Ele destacou que se for decidida a retirada do produto, deverá ser feita por uma equipe de técnicos qualificados. "Não podemos esperar que alguém se contamine para fazer alguma coisa."
O Grupo Severiano Ribeiro, que administra os cinemas Leblon, não quis se pronunciar sobre o caso antes de receber um comunicado oficial. O secretário da Saúde, Gilson Cantarino, não foi localizado até o fim da tarde de hoje para comentar o resultado da análise.
O spray com amianto pode ter sido utilizado em igrejas e prédios comerciais da cidade, segundo denúncia feita por um ex-funcionário da Indústria Brasileira de Isolantes Térmicos Temporal S.A, responsável pela aplicação do Limpet na construção civil do País até 1994, quando teve sua falência decretada. Sócio da empresa até 1979, o empresário Amaury Temporal confirmou a aplicação do produto apenas na construção do Edifício Avenida Central, no centro do Rio.
O coordenador do Cesteh, Hermano Albuquerque, disse que vai pedir à Secretaria da Saúde que investigue a utilização do mineral na construção das Igrejas São Francisco de Paula, na Barra da Tijuca, e da Ressurreição, no Arpoador, e do shopping Avenida Central, que funciona no Edifício Avenida Central. "Fizemos essa primeira análise nos cinemas para verificar a procedência da denúncia e, agora, vamos recomendar que se faça o mesmo nos outros locais apontados."

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