Laudo confirma que vacina causou morte de mulher; campanha pode ser suspensa
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Clayton Levy 
Campinas, SP, 10 (AE)- Laudo do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, divulgado hoje, revela que a morte da paciente Katy Cristina Ramos, de 22 anos, foi causada pela vacina contra a febre amarela. A mulher, que residia em Americana, morreu no dia 27 de fevereiro, no Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cinco dias depois de ser imunizada durante a campanha de vacinação em massa realizada pelo governo estadual. Técnicos da Secretaria Estadual de Saúde devem se reunir ainda hoje para discutir a suspensão da campanha.
"Não há mais dúvidas de que a morte da paciente está diretamente relacionada à vacina", disse o diretor da Divisão Regional de Saúde (DIR) em Campinas, Marcelo de Queiroz Ramos. Segundo ele, o laudo do Instituto Adolfo Lutz informa que foram encontrados vestígios do vírus vacinal em todas as víceras da paciente. Os exames também revelaram que Katy não apresentava nenhuma patologia anterior à vacina. Não há, na literatura médica, registro de outros casos semelhantes no mundo.
A paciente recebeu a vacina no posto de saúde onde morava, no bairro Jardim Ipiranga, em Americana. Segundo relato de familiares, Katy passou a apresentar dor de cabeça, febre e dores pelo corpo um dia após receber a dose. Ela procurou atendimento no Hospital Municipal de Americana, onde o médico receitou analgésicos e a liberou.
Como os sintomas persistissem, a paciente voltou por três vezes consecutivas ao hospital. No dia 25 de fevereiro o seu quadro agravou-se e ela foi levada para a UTI da Santa Casa de Misericórdia de Santa Bárbara Doeste e, de lá, transferida para o HC da Unicamp. Ao chegar em Campinas, a paciente já apresentava comprometimento dos rins, fígado e pulmões. Dois dias depois, ela morreu.
A campanha de vacinação em massa atingiu cerca de dois milhões de pessoas na região de Campinas. A medida foi adotada pelo Governo Estadual, depois de ter sido registrado um caso da doença na cidade. "Diante desse fato, somos favoráveis à suspensão da vacinação", disse o diretor da DIR. A medida, porém, será discutida hoje com outros técnicos da Secretaria Estadual da Saúde.
Meningite - A DIR de Campinas também decidiu realizar uma série de análises para esclarecer se o aumento inesperado de casos de meningite viral, registrados na cidade nos últimos dias
estaria relacionado a vacinação em massa contra a febre amarela
realizada no mês passado. Segundo dados oficiais do órgão, foram registrados 80 casos da doença nos meses de janeiro e fevereiro. Esse número corresponde a um aumento de 20% em relação ao mesmo período de anos anteriores.
"Existe uma evidente relação temporal entre a doença e a vacinação", disse o diretor da DIR. Segundo ele, vários lotes da vacina usada na região de Campinas serão enviados para o laboratório Biomanguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, responsável pela produção das doses. "Pedimos ao laboratório para fazer uma nova checagem nas vacinas", disse. Embora afirme que a nova checagem corresponda apenas a uma "medida de segurança", Ramos diz que não está descartada a possibilidade de o aumento nos casos de meningite estar relacionado a um efeito colateral inesperado da vacinação. "Como as doses são produzidas com o vírus vivo enfraquecido, há sempre o risco de a toxidade viral ter ficado acima do normal", explica. Segundo ele, técnicos da Fiocruz e da secretaria estadual de Saúde deverão reunir-se hoje, em São Paulo, para discutir o caso. Além de examinar as vacinas, a DIR também está enviando para o laboratório Adolfo Lutz, em São Paulo, material colhido dos pacientes com meningite. Se as amostras revelarem a presença do vírus da febre amarela, será mais um indício de que os casos de meningite estariam relacionados a vacina. Os resultados, segundo Ramos, deverão ficar prontos em trinta dias.
Esta não é a primeira vez que as autoridades de saúde investigam vacinas usadas em campanha de massa na cidade. Em 1996, uma vacinação contra meningite provocou reações inesperadas em milhares de pessoas. Na época, os exames revelaram que as doses, produzidas pelo laboratório Biomanguinhos, apresentavam um índice de toxidade dez vezes maior que o indicado.
De acordo com Ramos, o aumento de 20% nos casos de meningite viral não é suficiente para afirmar a existência de um surto na região. Segundo ele, esse quadro só é caracterizado quando o aumento inesperado da doença é causado pelo mesmo agente. "Só depois de identificarmos o virus poderemos confirmar a existência ou não de um surto", explica.


