Campinas, 25 (AE) - O câncer do ex-funcionário Leonino Pires de Godoy, que trabalhou durante 7 anos em uma usina de processamento de amianto, no município de Itapira, foi desenvolvido em função do contato com o minério. Foi o que revelou o exame anátomo-patológico da pleura e do pulmão. Os dois órgãos, segundo o laudo, contêm lesão fibrosante, compatível com asbestose, que é uma substância encontrada em determinada variedade de amianto anfibólio.
Este tipo de câncer é considerado muito agressivo pelos especialistas, pois desenvolve-se rapidamente e tem como consequência o endurecimento da pleura e do pulmão. A primeira biópsia realizada no ex-funcionário da usina, no dia 14 de maio deste ano, deu negativa. A doença só foi diagnosticada com a realização de novos exames, um mês depois. Os dois laudos foram assinados pela diretora de Serviço de Anatomia Patológica do Instituto do Coração (Incor), Maria de Lourdes Higushi.
O ex-funcionário, de 45 anos, passa por sessões de quimioterapia no setor de Oncologia do Hospital de Clínicas, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O seu estado de saúde é bastante debilitado. Godoy, que é pai de seis filhos, disse que não utilizou nenhum equipamento de proteção durante todo o período que trabalhou na mineradora. "Não decidimos ainda se vamos processar a empresa", disse a esposa, Neusa Aparecida Tenório de Godoy.
A usina, que produzia amianto do tipo antofilita - cuja comercialização está proibida no País desde 1991 --, foi desativada há 3 anos, depois de operar por cerca de 4 décadas. Os donos foram multados recentemente pelo Ministério do Trabalho
pois não vinham realizando os exames de saúde, obrigatórios, nos ex-empregados. Os trabalhadores, que mantêm contato com o amianto, são obrigados a passar por exames médicos a cada 12 meses, por um período de 30 anos.
Projeto Inédito - A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está realizando o primeiro estudo brasileiro sobre os efeitos do amianto na saúde dos trabalhadores, que foram expostos ao minério ao desenvolverem atividade junto à usina. O projeto deve ser concluído até março do próximo ano, quando cerca de 10 mil funcionários e ex-funcionários de mineradoras já tenham passado por exames médicos.
O estudo está avaliando os empregados de duas usinas de amianto do tipo crisotila, que é menos fibroso e tóxico, se comparado aos que contém antofilita. Uma delas, no sul da Bahia, teve suas atividades iniciadas em 1940, e foi desativada em 1977. A outra, no município de Minaçú, que fica ao norte de Goiás, e ainda está em operação. "Estamos avaliando os efeitos de quase 60 anos da exposição de trabalhadores ao minério", disse o coordenador do projeto, o médico Ericson Bagatin.
O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com o custo avaliado em R$ 920 mil, tem apoio da Universidade de São Paulo (USP), Escola Paulista de Medicina (EPM) e Instituto do Coração (Incor)
além de outras duas universidades do Canadá e de um instituto norte-americano. Cerca de 4 mil trabalhadores já passaram por exames clínicos, radiológicos e de espirometria (que avalia a capacidade do pulmão).
Segundo o coordenador do projeto, ainda é cedo para fazer uma avaliação ou divulgar dados parciais da pesquisa. "O que deu para perceber é que o amianto crisotila brasileiro é menos tóxico, em comparação aos canadense e europeu", disse Bagatin, que ressaltou, ainda, que todo o trabalho está sendo feito com rigoroso critério científico. "O meu interesse no projeto é acadêmico, e o resultado dará base para o governo tomar a decisão sobre proibir ou não a comercialização desse tipo de amianto no País", completou.

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