Lapsos de memória de Machado pode prejudicar depoimento
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terça-feira, 09 de março de 1999
Por Eliane Azevedo 
Goiânia, 10 (AE) - O irmão do senador Íris Rezende (PMDB-GO), o ex-senador Otoniel Machado (PMDB-GO), sofre de lapsos de memória e, segundo os médicos que o assistem, se ficar comprovado um comprometimento neurológico das funções cerebrais, pode não ter condições de prestar um depoimento confiável à Justiça Federal, no processo que investiga o desvio de R$ 5 milhões da extinta Caixa Econômica de Goiás (Caixego) para a campanha do partido no Estado.
"Há um risco desse depoimento não ter validade", afirmou o neurologista Luiz Fernando Martins, diretor do Instituto de Neurologia de Goiânia, onde Machado está internado desde sexta-feira (05).
O médico explicou que a pressão alta crônica de Machado, associada à crise hipertensiva e ao estresse que teve ao receber a notícia da prisão preventiva, provocou alteração na chamada memória recente - o irmão do senador e ex-coordenador da campanha dele ao governo do Estado apresenta o que Martins qualificou como "vacilos", ao relatar fatos acontecidos, por exemplo, no dia anterior. A perturbação mental de Machado foi confirmada pelo cardiologista Joaquim Manoel Neto, designado pela Justiça Federal para avaliar se ele podia depor. O médico recomendou a realização de exames neurológicos aprofundados e garantiu que Machado não tinha condições de ser interrogado.
Hoje, a pedido do diretor do hospital, dois psiquiatras da instituição examinaram Machado e diagnosticaram uma depressão profunda.
No fim da noite de ontem (09), ao saber que o Tribunal Federal de Recursos havia concedido um habeas-corpus, revogando a prisão preventiva, ele reagiu com total indiferença, segundo o neurologista. "Esse é um dado muito preocupante", disse.
Martins afirmou que a família garantiu aos psiquiatras não serem recentes os problemas de memória do irmão de Rezende. Há meses, no relato dos parentes aos médicos, ele queixou-se da dificuldade de gravar na cabeça fatos recentes. Isso fez com que o neurologista desconfiasse de que Machado pode ter alguma doença que provoca esse tipo de alteração mental, como o Mal de Alzheimer.
No sábado (06), ele será submetido a um completo exame neurológico para avaliar a extensão do problema e, talvez, na avaliação prévia de Martins, haja chance de resolver-se a perda de memória a médio prazo.
"Acho que ele vai ter condições de ser interrogado num espaço de tempo médio porque não acredito que haja alterações na consciência", apontou. Machado chegou a ser submetido hoje a um exame de ressonância magnética para verificar a causa das intensas dores abdominais que vem sentindo, mas o resultado foi normal. Ele também está sob suspeita de sofrer de doença coronariana.
O advogado de Machado, Ney Moura Telles, disse que não vai colocar obstáculos ao depoimento do cliente - mas apenas ser for autorizado pelos médicos. Para ele, a ligação entre o desvio dos R$ 5 milhões e a campanha do PMDB, confirmada ontem (09) por dois dos oito acusados do escândalo, não altera a estratégia de defesa. "Os acusados têm o direito de dar a versão que quiserem
mas todo mundo sabe que foram eles que ficaram com o dinheiro"
afirmou Telles. O TRF concedeu também habeas-corpus ao ex-liquidante da Caixego, Edivaldo da Silva Andrade, que estava preso desde 28 de janeiro.


