São Paulo, 20 (AE) - O comissário (ministro) de Comércio da Comissão Européia, Pascal Lamy, afirmou hoje, em São Paulo, que a União Européia não vai negociar a questão agrícola da forma como o Grupo de Cairns. De acordo com Lamy, os países cujas exportações dependem significativamente do setor agrícola querem que os produtos dessa área sejam tratados como os do setor de alimentos industrializados. "Nós não vamos aceitar isso", disse Lamy, respondendo a provocações sobre o protecionismo europeu feitas durante um debate organizado pelo Centro de Estudos Avançados da USP.
Lamy acrescentou que os produtos agrícolas in natura tem características especiais que não podem ser tratadas de igual forma. "Se a questão for colocada desta forma a resposta é não", afirmou o comissário europeu. Lamy explicou que a União Européia negociará o tema agrícola apenas em duas condições. Uma
de forma multilateral, aceitando reduzir os subsídios e o sistema de suporte para diminuir a distorção dos preços provocada pela Política Agrícola Comum (PAC), e outra na condição de que essas negociações não eliminem os 7 milhões de agricultores europeus.
"Não vamos transformar esses agricultores em mineiros de carvão de 50 anos atrás", disse Lamy, ao se referir ao tratamento dado naquele período aos trabalhadores das minas de carvão na Europa. Segundo ele, são essas as condições para estabelecer um diálogo sobre a questão agrícola. "Caso contrário não vamos aceitar", reafirmou.
De acordo com Lamy, a PAC não é um obstáculo para as negociações multilaterais, já que em 10 anos passou de sistema de suporte de preços para um suporte direto à receita. Lamy acrescentou que, como responsável pelas negociações, tem autoridade para exigir maior abertura do mercado europeu para países em desenvolvimento.
Lamy se disse surpreso com as insistentes reclamações do Brasil em relação ao protecionismo europeu. "Se analisarmos os dados de hoje, 2/3 das exportações agrícolas brasileiras estão isentas de qualquer imposto ou obstáculos. Isso me leva a reconhecer que temos problemas apenas em 1/3", afirmou. Ele explicou ainda que, nos últimos 10 anos, as exportações de carne brasileira à União Européia cresceram 50%. "Tenho a impressão de que precisamos ainda explicar muito sobre os aspectos agrícolas europeus, já que parece que não estamos sendo entendidos", afirmou.
Apesar dessas explicações, Lamy não escapou de duríssimas críticas feitas por alguns convidados do Instituto de Estudos Avançados para debater o futuro das negociações entre o Mercosul e a União Européia. O presidente da SOBEET (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica), Pedro da Motta Veiga, disse que, embora brilhante, Lamy justificou o protecionismo europeu de forma cartesiana, característica da intelectualidade francesa. "É a visão social democrata da globalização contra o paradigma liberal dos Estados Unidos", disse Motta Veiga.
Durante a sua exposição, Lamy reconheceu que os países membros da Organização Mundial do Comércio perderam a grande oportunidade de lançar uma nova rodada de negociações multilaterais em resposta adequada à globalização. O comissário europeu disse que já se foi o tempo em que os países fortes negociavam acordos por conta própria e as vendiam aos países em desenvolvimento. "Por isso, precisamos modificar à OMC para ser mais eficiente, responsável e transparente".

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