Lampreia teve papel decisivo nas horas finais da reunião de Seattle
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terça-feira, 07 de dezembro de 1999
por Paulo Sotero 
Washington, EUA, 7 (AE) - A rebelião dos países em desenvolvimento contra sua exclusão das deliberações na reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, em Seattle, não foi a única forma pela qual as nações mais pobres influíram para levar o histórico encontro ao desfecho inconclusivo anunciado na noite de sexta-feira passada, depois de três dias de conversas infrutíferas marcadas por protestos nas ruas e um grau de acrimonia raras vezes visto num conclave internacional.
Diante da total falta de entendimento entre os Estados Unidos, a Europa e o Japão, que controlam mais de três quartos do comércio mundial e a quem cabia, desta vez, fazer as grandes concessões, comprometendo-se a reduzir suas barreiras comerciais numa nova rodada global de negociações, representantes de países emergentes tiveram um papel crucial também na operação final de contenção de danos que transformou o colapso da reunião da OMC, oficialmente, numa "suspensão" dos trabalhos.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Luiz Felipe Lampreia, um ex-embaixador na OMC que, três dias antes, denunciara o caráter discriminatório do sistema internacional de comércio num duríssimo discurso de críticas às nações ricas, teve um papel decisivo nas horas finais do encontro. Lampreia e o ministro da Agricultura, Marcos Vinicius Pratini de Morais, haviam estado desde às 6h30 da manhã da sexta-feira tratando da questão agrícola numa reunião do chamado "green room", um grupo restrito de países mais relevantes que a ministra do comércio exterior dos Estados Unidos, Charlene Barshefsky, que presidia os trabalhos, finalmente convocou depois de constatar que os grupos de trabalho sobre temas específicos, que ela convocara dois dias antes, não levariam a nada.
Nove horas de negociações sobre agricultura serviram apenas para deixar claro que o texto prevendo a "eliminação progressiva" dos susídios às exportações, com o qual o comissário de comércio da União Européia, Pascal Lamy, havia concordado na noite anterior, não contava com o apoio de vários governos da Europa. No final da tarde, com o "green room" ainda reunido e as delegações excluídas das discussões em franca rebelião no Centro de Convenções de Seattle, Lampreia e Pascal deixaram a sala para uma consulta paralela. Segundo um diplomata
a essa altura, o chanceler brasileiro já havia dito à embaixadora dos EUA na OMC, Rita Hayes, que, diante da continuação dos vários impasses, era chegada a hora "de começar a pensar no plano B", ou seja, na busca de uma alternativa.
Mas Barshefsky não tinha um plano B e indicou que estava determinada a insistir. Uma advogada com grande talento para jogar pesado com o poder americano e arrancar acordos na última hora em negociações bilaterais, ela acreditava que poderia usar o prazo final de meia-noite, para o encerramento das negociações
imposto pelo prefeito de Seattle, Paul Schell, para dobrar os demais 134 membros da OMC e forçar um entendimento nos termos preferidos por Washington. Antes de chegar a Seattle, ela havia dito que não estava "nem um pouco preocupada" com as divergências que tinham frustrado um acordo na fase preparatória da reunião de Seattle. "Todos sabem que o fracasso não é uma opção", dissera ela.
Com o fracasso já desenhado, às 19 horas o diretor geral da OMC, o neo zelandês Mike Moore, concovou uma reunião de emergência em sua sala, ao lado do do local onde estava instalado o "green room".
Estavam presentes Barshefsky, Lampreia, Lamy, o secretário do Comércio dos EUA, Wiliam Daley, um dos vice de Moore, o americano Andy Stoler, e os ministros do comércio do Egito, Youssef Boutros-Ghali, e da áfrica do Sul, Alec Erwin. Informados, os delegados se concentraram do lado de fora para esperar o desfecho que inevitável. Foi nessa reunião de uma hora que Barshefsky finalmente convenceu-se de que era inútil continuar e que chegara a hora de proteger a WTO e evitar o constrangimento final de ver o prefeito de Seattle dar a reunião por encerrada e mandar a polícia esvaziar o centro de convenções
como ele informou a Moore que faria se os trabalhos não terminassem no prazo estipulado. Pouco depois, Barshefsky anunciou a "suspensão" da reunião.
As consequências do fiasco de Seattle estão apenas começando a ser avaliadas. Mas as análises coincidem num ponto. Saiu fortalecido o movimento de reafirmação das soberanias nacionais liderado por sindicatos e pelas organizações ambientais e cívicas dos países ricos, que cumpriram sua promessa de impedir, nas ruas, o lançamento da Rodada do Milênio. "O poder e influência desse movimento só crescerá", previu Jeffrey Garten, o diretor da escola da administração da Universidade de Yale, que comandou a ofensiva dos EUA para abrir mercados como sub-secretário do Comércio no primeiro mandato de Clinton. "Entramos numa nova era de comunicações, simbolizada pela Internet, que eles (os manifestantes) usaram para alavancar o poder de pequenos grupos e tornar esses grupos, literalmente, multinacionais", disse Garten. Além disso, "a globalização transformou-se num grande tema que não interessa apenas a comentaristas e a acadêmicos, mas está, agora, no centro da preocupação popular".
O fato de esses movimentos serem mais fortes, ricos e articulados nas nações industrializadas aumentará a pressão sobre os países pobres para que aceitem cláusulas sociais e ambientais no comércio, com ou sem uma nova rodada de negociações na OMC.


