Lampreia diz que é preciso relançar o Mercosul
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domingo, 03 de outubro de 1999
Por Denise Neumann 
São Paulo, 04 (AE) - As recentes crises comerciais entre Brasil e Argentina prejudicaram o Mercosul e, por isso, os quatro países que o compõem precisam conversar seriamente para relançar o bloco comercial, defendeu hoje o ministro das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Luiz Felipe Lampreia.
O ministro reconheceu que as pendências nos setores têxtil, calçadista, de papel e siderúrgico, entre outros, impediram que o Mercosul avançasse na convergência macroeconômica e no aprofundamento das relações comerciais. "Os sócios precisam sentar e ter conversas sérias para chegar a um acordo sobre como proceder para modificar esse rumo de crises crescentes", observou.
Prazo - Na avaliação de Lampreia, as conversas para o relançamento do Mercosul devem envolver os novos governos da Argentina e do Uruguai, a serem eleitos em outubro. Por isso, ele indicou como data para início desses encontros o fim de 1999 ou começo de 2000.
De acordo com o embaixador brasileiro, há pontos do Mercosul que foram postos "no papel, mas não entraram em vigor". Ele não quis detalhar o que precisa ser revisto para que o bloco possa avançar; citou apenas o mecanismo de solução de controvérsias, previsto no Tratado de Assunção, "que precisa ser aperfeiçoado".
Antes da posse do novo presidente da Argentina, em 10 de dezembro, os presidentes brasileiro, argentino, uruguaio e paraguaio têm encontro no Conselho do Mercosul, marcado para 8 de dezembro.
Têxteis - Dia 18, o Orgão de Monitoramento de Têxteis da Organização Mundial do Comércio (OMC) discute em Genebra a reclamação apresentada pelo Brasil contra as cotas estabelecidas pela Argentina para limitar as exportações de produtos brasileiros deste setor. A expectativa do embaixador brasileiro é que o órgão decida favoravelmente ao Brasil, impedindo que as cotas vigorem.
O principal argumento da defesa brasileira será o fato de as exportações brasileiras de têxteis para a Argentina não terem crescido no período recente. O presidente da Associação Brasileira da IndústriaTêxtil (Abit), Paulo Skaf, explicou que as cotas estabelecidas pela Argentina consideraram como teto o volume exportado no período de maio de 1998 a abril de 1999 - isso equivale a cerca de 5 mil toneladas.
Nesse período, disse Skaf, as vendas brasileiras para a Argentina caíram por conta da recessão. "Já é um período em que ocorreu queda nas vendas", explicou. A intenção Argentina, segundo o empresário brasileiro, é limitar a esse mesmo volume as vendas dos próximos três anos. Para as empresas brasileiras, contudo, a desvalorização do real permitiu ganho adicional de competitividade e a perspectiva do setor era aumentar as vendas para o país vizinho, que hoje já representa 30% das exportações têxteis do Brasil. "Mas nunca pensamos em entrar entrar de forma predatória na Argentina", observou.
Hoje, Skaf e outros empresários da Abit estiveram reunidos com o embaixador Lampreia na sede da entidade, discutindo tanto a reunião na OMC como futuras negociações têxteis na Rodada do Milênio e na área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Se as cotas argentinas forem derrubadas, disse Skaf, o setor se dispõe a dialogar com os empresários do setor têxtil argentino e negociar acordos semelhantes aos assinados pelo setor de calçados e de papel. Naqueles acordos, os empresários brasileiros aceitaram limitar as vendas para a Argentina por um período determinado.
Crescimento - Segundo Skaf, as exportações brasileiras já estão reagindo de forma positiva à desvalorização do real. O setor abriu 20 mil vagas entre abril e agosto, segundo dados do Ministério do Trabalho. Além de criar empregos, os resultados positivos também já estão aparecendo na balança comercial.
Em volume, informou Skaf, as exportações brasileiras de têxteis cresceram 10% em agosto de 1999 em relação ao mesmo mês do ano passado. "Em valor, o resultado ainda repetiu o desempenho de 1998", disse ele. "Mas a partir de setembro esperamos aumento de receita, também", acrescentou.


