Brasília, 22 (AE) - O ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampréia, defendeu hoje a revisão da modalidade de abertura comercial no Brasil. "Precisamos saber o que é bom para nós e ter uma visão própria. Não podemos imitar nem macaquear", afirmou o chanceler durante a inauguração do grupo interministerial de trabalho sobre comércio internacional de mercadorias e serviços, formado por cinco ministérios e entidades do setor privado.
Esse grupo vai coordenar as posições do Brasil nas negociações da Rodada do Milênio na Organização Mundial do Comércio (OMC). Nesse momento, o governo brasileiro também inicia conversações com a União Européia, visando a formação de uma área de livre-comércio no âmbito do Mercado Comum do Sul (Mercosul).
O chanceler previu hoje que um programa de negociações comerciais entre o Mercosul e a União Européia será fechado na Cimeira América Latina e Caribe-União Européia, que começará no Rio de Janeiro nesta sexta-feira.
A expectativa do governo brasileiro é que as negociações não-tarifárias e tarifárias, inclusive sobre os subsídios agrícolas, comecem em julho de 2001. O Brasil quer que o acordo fixe uma data para o encerramento das discussões - 2005, que coincide com o fim das regras para a implantação da área de Livre Comércio das Américas (Alca).
O avanço das negociações com a União Européia ficou mais plausível depois da última segunda-feira, quando os 15 ministros do Exterior outorgaram à Comissão Européia (órgão executivo) o mandato para negociar com o Mercosul um acordo de livre-comércio.
Preço - "Precisamos definir o preço que estamos dispostos a pagar para obter as concessões que pretendemos obter de outros países para aumentar a participação do Brasil no comércio internacional", acrescentou o chanceler. Na avaliação dele, a abertura comercial foi uma boa coisa para o País, "mas é ingenuidade achar que quanto mais a mão invisível do mercado atuar, mais se ganha".
Lampréia considerou "desastrosa" a redução do Imposto de Importação dos automóveis realizada em 1995 - e que teve de retornar a 70% alguns meses depois por causa do déficit na balança comercial. "Depois da globalização não está mais claro que quanto mais aberto, melhor", ressaltou.
Segundo o ministro, a redução dos subsídios às exportações de produtos agrícolas concedidos pelos países desenvolvidos é a prioridade do Brasil nas negociações que se iniciam com a União Européia e na Rodada do Milênio da OMC.
Os produtos agrícolas brasileiros ainda estão sujeitos a elevadas barreiras nos mercados dos principais parceiros comerciais. As outras razões são o peso das commodities na pauta das exportações brasileiras e o potencial de expansão das vendas externas desses produtos. "Vamos nos preparar não somente para apresentar propostas, mas também as nossas defesas", afirmou.
O chanceler lembrou, no entanto, que o Brasil e seus parceiros no Mercosul - Argentina, Uruguai e Paraguai, mais Chile e Bolívia - precisam refletir sobre as concessões que podem fazer aos países desenvolvidos.
"Assim como nós temos pressa em discutir com os europeus o fim dos subsídios agrícolas, eles querem que o Mercosul baixe as tarifas de importação dos produtos industrializados", lembrou. "E será que estamos preparados para abrir mais nosso mercado dentro de seis meses ou um ano?"
Outro ponto de interesse do Brasil nessas negociações comerciais é o papel dos incentivos ao desenvolvimento para recuperar o atraso tecnológico em relação aos países desenvolvidos. "Não podemos esquecer que a competitividade da indústria brasileira é cinco vezes menor do que a do Brasil", lembrou Lampréia.
A complexidade dessas negociações, que precisam contemplar vários aspectos, exigem soluções difíceis, ressaltou o chanceler. Para isso, foi criado o grupo de trabalho interministerial, inaugurado hoje.
"Também chegou a hora de pensarmos que vamos nos conformar em continuar ocupando um espaço importante nas exportações de quatro ou cinco commodities para a Europa e alguns produtos industrializados para a América Latina, ou evoluir na nossa capacidade produtiva", afirmou Lampréia. Estudo recente da Fundação de Comércio Exterior (Funcex) indica excessiva concentração setorial nas exportações brasileiras.
Entre março de 1998 e março de 1999, metade das vendas externas foram de produtos agropecuários, complexo soja, siderúrgicos, automotivos e minérios.

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