de São Paulo

Silvio Ribeiro/Agência EstadoSuperstarLamia desembarcou ontem em Cumbica e se assustou com a quantidade de pessoas que a aguardavam‘‘Depois de passar dez anos e oito meses na prisão, Lamia Maruf Hassan não se arrepende de ter participado do sequestro e assassinato do soldado israelense. ‘‘Mesmo que tivesse de morrer atrás das grades, jamais pediria perdão’’, afirmou ontem, em seu primeiro dia de liberdade no Brasil. ‘‘Tudo o que fiz foi dentro de um contexto político: não sou uma prisioneira comum.’’
A brasileira foi recebida pela manhã no Aeroporto de Cumbica com tratamento de superstar. Até funcionários do aeroporto pararam de trabalhar para vê-la chegar. Mas Lamia não demonstrou intenção de permanecer no País por muito tempo. Quer voltar para Israel assim que conseguir revogar sua deportação. ‘‘Para mim, a idéia de não poder voltar para lá é inconcebível’’, enfatizou. ‘‘Preciso ver meu marido e continuar a luta pela paz.’’
Lamia acredita que tudo o que aconteceu no passado - inclusive o atentado de que participou - fez com que os governos ‘‘acordassem’’ para a paz. Ela garantiu não ter dúvidas de que terá o direito de voltar para Israel e que seu marido será solto. ‘‘A última retirada dos presos será, no máximo, em 99’’, disse, convicta.
A brasileira afirmou ter conversado muito sobre isso com o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat. ‘‘Ainda não me sinto totalmente livre; só vou me realizar quando todos forem soltos.’’
Ela contou que na época em que houve o sequestro, tinha consciência de tudo o que estava fazendo, embora tivesse 19 anos. ‘‘Hoje, não teria mais sentido agir daquela forma’’, comentou. ‘‘Mas o que fizemos foi importante para chegar onde estamos.’’ Lamia acrescentou que o radicalismo dos palestinos têm explicação. ‘‘Lutávamos por terra’’, destacou. ‘‘Não entendo, porém, as atitudes radicais do outro lado.’’
A ex-prisioneira fez questão de ressaltar que sua participação no crime do soldado foi secundária. ‘‘Eu apenas dirigi um carro’’, justificou. ‘‘Não sabia o que iria acontecer, fazia poucas perguntas.’’ Lamia contou que ela e o marido cumpriram ordens do governo. ‘‘Agimos como soldados, só que sem farda’’, afirmou. ‘‘Eu fui uma simples participante.’’
Ontem, deputados federais estiveram no aeroporto e também foram a sua casa lhe prestar homenagens - a maioria do PC do B. O governador do Espírito Santo, Vítor Buaiz, telefonou para ela e, de acordo com Lamia, deve ajudá-la a relizar seus projetos.
Nos anos em que viveu na prisão, Lamia contou ter lido demais. Aprendeu a falar três idiomas e deu aula de inglês. ‘‘Eu recebia muita informação lá dentro’’, contou. ‘‘Às vezes, as pessoas vinham me visitar e ficavam assustadas de ver que eu sabia mais que elas.’’

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