Lagos tem vitória amarga no Chile Do enviado especial LOURIVAL SANT'ANNA
Santiago, 13 (AE) - O candidato da coalizão governista Concertación, Ricardo Lagos, venceu o primeiro turno pela escassa margem de 30 mil votos sobre Joaquín Lavín, da Aliança pelo Chile, de direita. Num universo de 7,2 milhões de votos, foi virtual empate. Entretanto, o resultado foi assimilado como derrota pela Concertación e como agradável surpresa pela Aliança.
"Estou contente por representar metade do povo chileno", disse hoje (13) Lavín. "Não esperava ter 47% dos votos." Na noite de domingo, somente os partidários da Aliança saíram às ruas para festejar, depois do anúncio dos resultados.
Na eleição de 1993, os dois candidatos da direita tiveram, somados, 34% e Eduardo Frei, da Concertación, foi eleito no primeiro turno, com 58%. Na eleição anterior, em 1989, Patricio Aylwin, da mesma coalizão, também foi eleito no primeiro turno, com 54%.
Frei e Aylwin pertencem à Democracia Cristã (DC), o maior partido do Chile, enquanto Lagos é do Partido Socialista (PS). Pela primeira vez em quatro décadas, a DC apoiou candidato de outro partido. Dessa vez, parte de seu eleitorado preferiu o candidato da direita.
Lagos assumiu hoje a defensiva, ao ser indagado se sofreu "voto de castigo" no domingo. "Foi um voto de insatisfação, numa eleição em condições econômicas pouco satisfatórias, com crescimento zero e desemprego de 11%", justificou, referindo-se aos efeitos da crise financeira internacional do ano passado e em especial da desvalorização do real, em janeiro, que reduziram os investimentos e as exportações.
O candidato da Concertación passou toda a campanha dizendo que seria eleito já no primeiro turno, com mais da metade dos votos válidos, enquanto Lavín estabeleceu como meta chegar ao segundo turno.
Lagos teve 47,96% dos votos válidos e Lavín, 47,52%.
Desde 1997 até as vésperas das eleições, os principais institutos de pesquisa previam vitória de Lagos - inicialmente por ampla margem, que se foi estreitando, mas nunca ficou abaixo dos seis pontos porcentuais. Apenas pesquisas encomendadas pelo comando de Lavín e por empresários que o apóiam previram empate ou mesmo vitória do candidato.
Lagos recomeçou hoje mesmo a campanha. Seu primeiro compromisso foi uma reunião com um grupo de mulheres da comuna de La Granja, na região metropolitana de Santiago, marcando uma das novas prioridades de sua campanha: conquistar o voto feminino, maciçamente canalizado para Lavín no primeiro turno. Pouco mais de 1,6 milhão de mulheres votou em Lagos, enquanto mais de 1,9 milhão votou em Lavín. As seções eleitorais são separadas por sexo no Chile.
"As mulheres são mais conservadoras, mais sensíveis ao bem-estar da família e dos filhos, querem viver tranquilas e se preocupam essencialmente com a segurança e o emprego", interpretava hoje a deputada María Angélica Cristi, do comando da campanha de Lavín. O candidato lançou espécie de cruzada contra o desemprego e a criminalidade.
Lavín só retoma a campanha amanhã. Hoje, ele foi para Iquique, no norte do país, "pagar promessa à Virgem de La Tirana". Membro do grupo ultracatólico Opus Dei, Lavín, de 46 anos, apresenta-se como defensor dos valores da família e da religião, sempre acompanhado da mulher e de pelo menos os três menores de seus sete filhos. O perfil pessoal de Lagos, 61 anos, é bem diferente: ele se separou da primeira mulher e vive com a segunda, num país onde o divórcio ainda é proibido.
Os votos nulos somaram apenas 2,2% e os brancos, 0,8%. Numericamente, o grupo de eleitores mais cobiçado nesta nova fase da campanha é o dos que se abstiveram: 850 mil pessoas ou 10,6% do eleitorado. O presidente Eduardo Frei fez hojje um apelo para que esse contingente compareça no segundo turno.
"Apesar dos problemas, espero que o povo continue considerando que somos os melhores para resolver os problemas", disse Frei, declarando-se "orgulhoso" pelo fato de a Concertación ter ficado em primeiro lugar "apesar dos efeitos da crise financeira internacional sobre a economia chilena". Frei acrescentou que "a economia está entrando numa etapa de plena recuperação".
O presidente é criticado pela oposição por seu engajamento na campanha de Lagos. O chefe da campanha de Lavín, Francisco de la Maza, pediu hoje a Frei que "termine com a insuportável interferência eleitoral, que começou há dois meses". De la Maza afirmou que essa atitude é contrária à tradição chilena e lembrou que Aylwin (1990-94) não teve esse tipo de envolvimento.
O outro contingente a ser disputado é o dos votos dados, no primeiro turno, aos candidatos "nanicos": a comunista Gladys Marín, com 3,19%, o humanista Tomás Hirsch 0,51%, a ecologista Sara Larraín, 0,44%, e o democrata-cristão dissidente Arturo Frei Bolívar, 0,38%.
Marín, que teve cerca de metade dos votos que lhe atribuíam as principais pesquisas, acenou hoje com a possibilidade de apoiar Lagos no segundo turno, desde que a Concertación adote a seguinte agenda: nova Constituição, redistribuição de renda, reforma da Justiça e das leis trabalhistas. Lagos já está comprometido com esse último item.
Proposta de reforma trabalhista apresentada pelo governo foi rejeitada no dia 1º, no Senado, numa derrota que contou com a participação de democrata-cristãos insatisfeitos. A reforma, que reintroduzia negociações setoriais e proteções contra demissões, foi condenada pelo empresariado, que apoiou maciçamente Lavín no primeiro turno.





