Santiago, 15 (AE-AP) - O dedo acusador trouxe fama internacional a Ricardo Lagos, e agora o advogado e economista de 61 anos mostra-se com claras possibilidades de transformar-se no segundo presidente socialista do Chile.
Se for eleito nas eleições de 16 de janeiro, ele será o primeiro presidente socialista que chega ao palácio de La Moneda nos últimos 27 anos, apesar de os militares terem acreditado que haviam apagado a esquerda marxista da cena política quando derrubaram o presidente Salvador Allende, em 1973.
Lagos trocou o mundo acadêmico pelo da política para lutar contra a ditadura do general Augusto Pinochet.
Ele fundou o Partido pela Democracia, PPD, para ajudar a derrotar Pinochet no plebiscito de 1988, que obrigou o ditador a convocar uma eleição direta e entregar o poder em março de 1990.
Lagos transformou-se em 1988 num dos principais líderes opositores, ao aproveitar o primeiro programa político televisionado permitido pela ditadura para criticar o regime e o próprio Pinochet.
Olhando fixamente para a câmara, dirigiu-se diretamente a Pinochet - apontando-lhe seu dedo indicador, e acusou de ser mentiroso e ambicioso "por pretender ficar 25 anos no poder".
Lagos é considerado um homem temperamental, que dificilmente sorri, que se sente mais confortável num traje formal do que numa roupa esporte. Os que o cercam reconhecem que tem um caráter quase autoritário e altivo, mas acrescentam que sua figura de estadista é difícil de igualar.
Filho único de uma professora escolar, que já completou 102 anos de idade, o líder socialista não tem círculos de poder conhecido, e prefere trabalhar com equipes que controla diretamente.
Lagos, que por decisão própria foi para o exílio durante a ditadura, conquistou a candidatura presidencial da coalizão governista numa eleição primária em 30 de maio, superando 72% dos votos o democrata-cristão Andrés Zaldívar.
Ele foi detido junto com dezenas de dissidentes numa represália imediata ao frustrado atentado de 7 de setembro de 1986 contra Pinochet, que resultou na morte de cinco guarda-costas e ferimentos graves em outros 11.
Mas a prisão talvez tenha sido uma bênção naquele dia. A morte dos escoltas foi vingada por um comando que atravessou a cidade em pleno toque de recolher e matou a tiros quatro esquerdistas.
Lagos aspira liderar o terceiro governo da Coalizão de Partidos pela Democracia, que derrubou Pinochet em 1988 e chegou ao poder em 1990, com o democrata-cristão Patricio Aylwin, sucedido por seu correligionário Eduardo Frei.
Apesar de com reticências no começo, Lagos eventualmente somou-se à defesa "de princípios" que o presidente Eduardo Frei fez do general Pinochet após sua detenção em Londres.
Ele prometeu que caso chegue à presidência fará o Chile "crescer com igualdade" e que levará o país ao pleno desenvolvimento em 2010, "com maior justiça, aprofundando o que temos feito na educação, saúde, no seguro desemprego, nas aposentadorias".
Durante sua campanha enfatizou a necessidade de se melhorar a distribuição de renda.
Seus adversários tentam mostrá-lo como um continuador do governo socialista de Allende, que terminou em meio ao caos político, social e econômico, que culminou com o golpe. Lagos não nega essa passado, mas insite que é impossível repeti-lo.
É casado pela segunda vez, com Luisa Durán, e juntos têm cinco filhos. Ele estudou direito na Universidade do Chile e é doutor em economia pela Universidade de Duke, nos Estados Unidos.
Lagos integrou a Aliança Democrática, a primeira coalizão de oposição a Pinochet, tendo sido ministro da Educação do presidente Patricio Aylwin e de Obras Públicas de Frei.
Durante o governo Allende ele não ocupou cargos políticos, concentrando-se nas atividades acadêmicas. Em 1973, Allende o nomeou embaixador na União Soviética, mas ele não chegou a assumir o cargo por causa do golpe militar.