Santiago, 17 (AE) - O presidente eleito Ricardo Lagos deve assumir o poder em março pedindo unidade ao Chile, depois de uma eleição que dividiu o país. O socialista Lagos fez questão de dizer em seu discurso e em sua primeira entrevista como presidente eleito que representará também os mais de 48% de chilenos que votaram no seu opositor de direita, Joaquín Lavín.
"Vamos trabalhar para todos os chilenos", disse hoje (17) durante sua primeira entrevista à imprensa. No discurso que fez logo após a divulgação do resultado na Praça da Constituição, no domingo à noite, Lagos deixou claro que fará o possível para que o general Augusto Pinochet seja julgado no Chile quando voltar ao país. "Em meu governo todos os chilenos são iguais perante os tribunais", disse o presidente eleito do Chile. O discurso foi interrompido por manifestantes que gritavam "julgamento para Pinochet". Hoje, Lagos voltou a afirmar que haverá independência para que o Judiciário decida se vai julgar ou não o general.
Lagos não revelou nenhum nome entre os seus possíveis ministros, e afirmou que divulgará a composição do gabinete em duas ou três semanas. Mas já começou a ser negociada a transição do atual governo da Concertación. Hoje, o presidente Eduardo Frei tomou café da manhã na casa de Lagos e começaram as reuniões de trabalho com a ex-chefe da campanha e possível ministra do Interior, Soledad Alvear. Na saída, Frei disse estar feliz com o resultado da eleição por representar "continuidade".
A única medida anunciada por Lagos hoje foi a criação de um seguro-desemprego para os trabalhadores e uma futura reforma do sistema trabalhista, provavelmente para aumentar os direitos trabalhistas. "Mas não será uma reforma contra os empresários"
disse Lagos.
Sobre a grande votação obtida pela direita, que atingiu 48% dos votos, Lagos disse que sua legitimidade não deve ser questionada e juridicamente não faz diferença se a vantagem foi de muitos ou poucos pontos porcentuais. Mas afirmou que escutará os eleitores que votaram na oposição. Nesta primeira semana após a eleição, Lagos deverá ter reuniões de trabalho e provavelmente na quinta-feira e sexta-feira viajará a províncias do interior do Chile para agradecer pelos votos recebidos.
Hoje não houve novas totalizações de votos divulgadas pelo Ministério do Interior. Até agora, foram divulgados os resultados de 99,8% das urnas, que dão a Ricardo Lagos 51,32% das preferências e a Joaquín Lavín, 48,68%. Os resultados correspondentes a 100% dos votos deverão ser divulgados nos próximos dias, depois da revisão da apuração pelo Tribunal Eleitoral.
Ricardo Lagos disse ter conversado com o presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a possibilidade de aumentar a integração política entre os países do Mercosul e o Chile.
Fernando Henrique foi um dos primeiros presidentes estrangeiros a ligar para Lagos para parabenizá-lo pela vitória, junto com Fernando de La Rúa, da Argentina, e Hugo Chávez, da Venezuela. Lagos disse que falou rapidamente sobre o Mercosul com o presidente brasileiro e afirmou que espera que sua eleição ajude numa coordenação de políticas de combate à pobreza entre países da América Latina. O presidente eleito citou uma frase de Fernando Henrique sobre a América Latina, dizendo que a região "não é rica nem pobre, é injusta".
Lagos é amigo de Fernando Henrique e foi a Brasília em 1998 cumprimentá-lo pela reeleição. Na ocasião, o brasileiro deu ao então ministro chileno um livro com a dedicatória: "Para Ricardo Lagos, na expectativa de que sejamos colegas em breve."

mockup