Santiago, 10 (AE-AP) - Ricardo Lagos Escobar, primeiro socialista eleito para governar o Chile desde Salvador Allende - deposto pelo sangrento golpe desfechado por Augusto Pinochet, em 1973 -, assume amanhã (11) a presidência do país e o desafio de consolidar a democracia chilena, recuperar a economia nacional e cumprir a promessa de campanha de promover o crescimento e diminuir as profundas desigualdades da sociedade chilena.
Adicionalmente, terá pela frente a tarefa de aliviar a tensão nos quartéis - onde os ânimos votaram a se acirrar por causa da ação judicial que corre no Chile contra Pinochet - e impedir que o poder militar se transforme num empecilho para a governabilidade do país.
Lagos receberá a faixa presidencial das mãos de seu antecessor, Eduardo Frei, e será investido na presidência numa sessão solene do Congresso, em Valparaíso, a 120 quilômetros da capital chilena, Santiago. Participam da cerimônia de posse 13 chefes de Estado e de governo estrangeiros, entre os quais, o presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso.
O polêmico general Pinochet, cuja presença irritaria o governo, aparentemente não participará cerimônia. "Seria uma piada de extremo mau gosto se Pinochet se utilizasse de seu cargo de senador vitalício para comparecer à posse de Lagos", disse à AE o cientista político Francisco Rojas, diretor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).
Depois de passar 503 dias em prisão domiciliar em Londres, da qual foi libertado com base num laudo que atestava sua frágil saúde, Pinochet, de 84 anos, passou a exibir uma surpreendente recuperação depois de chegar a Santiago, no dia 3.
Lagos chega ao poder depois de derrotar nas urnas, por estreita diferença, o direitista Joaquín Lavín - que durante a campanha tentou afastar-se da imagem de Pinochet para obter votos dos eleitores moderados. É o terceiro político da coalizão de quatro partidos de centro e de esquerda, a Concertación, a chegar à presidência desde o início da transição democrática, em 1990. Os primeiros foram Patricio Aylwin - de quem Lagos foi ministro da Educação - e o próprio Frei.
Considerado o herdeiro político de Allende, Lagos tem assegurado que dará prioridade a reformas que ponham fim aos resquícios da ditadura Pinochet que marcam a vida política chilena - como os "senadores designados" pelos militares, também conhecidos como "bancada militar", que produzem distorções de representatividade no Senado.
O novo presidente receberá um país que sai lentamente de uma profunda crise econômica, reflexo das crises monetárias em países da ásia e nos maiores mercados da América Latina.
A posse de Lagos será celebrada em todo o país com atos populares e eventos artísticos. Depois da solenidade em Valparaíso, o novo presidente participará de um ato político em Concepción, a 500 quilômetros de Santiago. À tarde, retornará à capital para um evento similar.
Em Lima, a poucas horas da viagem para o Chile, o presidente peruano, Alberto Fujimori, desistiu hoje de participar da cerimônia de posse de Lagos. A informação, sem nenhum outro detalhe, foi dada pelo Departamento de Imprensa do governo peruano.

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