Lafontaine deixa Finanças e presidência do SPD Do enviado especial Paulo Sotero
Frankfurt, 11 (AE) - Oskar Lafontaine renunciou hoje (11) ao cargo de ministro das Finanças da Alemanha e à presidência do situacionista Partido Social Democrata (SPD). A renúncia surpreendeu o mercado, embora tenham circulado rumores sobre sérios desentendimentos numa reunião de gabinete realizada na quarta-feira. O chanceler Gerhard Schroeder divulgou nota afirmando que "lamenta a surpreendente renúncia e agradece a Lafontaine por seu trabalho". Não foi divulgado o motivo da renúncia.
Acredita-se que Schroeder vá suceder Lafontaine como presidente do Partido Social Democrata. Hans Eichel, governador do Estado de Hesse, pode assumir a pasta das Finanças, disseram fontes do SPD.
Nos pouco menos de seis meses da gestão Lafontaine, o PIB alemão registrou sua primeira queda em vários anos, o déficit público aumentou, a coalizão governamental perdeu uma importante eleição estadual e o controle do Bundesrat, o senado. Mais: o governo entrou em conflito aberto com o Banco Central Europeu (BCE) sobre o rumo da política monetária, comprou (e perdeu) briga com Washington sobre política cambial e as relações entre Bonn e o empresariado alemão chegaram à sua maior deterioração em meio século.
A queda de Lafontaine abriu o caminho para a consolidação do poder do mais pragmático Schroeder, um ex-membro da diretoria da Volkswagen que tem boas relações com o empresariado e estava vendo o governo escapar-lhe das mãos, em grande parte por causa das ações de seu ministro das finanças. A expectativa, agora, é que Schroeder assuma o lugar de Lafontaine no comando do SPD e ganhe espaço para afirmar sua liderança na coalizão de sociais-democratas e verdes, que vinha presidindo até agora de forma hesitante e com resultados desastrosos.
O mercado aplaudiu a renúncia do ministro das Finanças. O euro, que vinha perdendo valor frente ao dólar, firmou-se. Ironicamente, o fortalecimento da moeda européia poderá levar o BCE a fazer exatamente o que Lafontaine pregava e baixar os juros - algo que recusou a fazer na semana passada, aparentemente para deixar claro ao mercado e a Bonn que não admitia interferência política na condução da política monetária. O ministro vinha insistindo para que o BCE reduzisse os juros para estimular a economia.
Lafontaine, de 55 anos, começou a cair tão logo assumiu o ministério das Finanças da maior potência econômica da Europa. Uma de suas primeiras iniciativas foi propor a abolição de várias isenções de impostos a empresas sem qualquer medida compensatória. A iniciativa foi tão mal recebida pelo empresariado que várias grandes corporações chegaram a anunciar que, se o governo insistisse, elas mudariam para outro país, agravando o já dramático desemprego alemão.
No mês passado, Lafontaine, desta vez em articulação com o governo francês, entrou em novo conflito, desta vez com o departamento do Tesouro dos EUA, o Federal Reserve e o BCE , ao propor a criação de um regime de banda larga para o euro, o dólar e o iene. A idéia foi rispidamente rechaçada por Washington e pelos banqueiros centrais da Europa durante reunião dos ministro do Grupo dos Sete (G-7), em Bonn, num episódio que introduziu novas dúvidas no mercado sobre o rumo da política econômica do maior país da Europa no delicado processo de implantação da nova moeda continental.
Uma proposta de reforma tributária de Lafontaine, que continha a promessa de uma política de impostos "socialmente mais justa" e a devolução de 20 bilhões de marcos aos contribuintes, a partir de 2002, foi rapidamente comprometida. A retração de 0,4% da economia alemã no último trimestre de 1998, que foi também o primeiro trimestre do novo governo, reduziu a arrecadação prevista, aumentou as despesas com seguro desemprego e outros benefícios e produziu um salto inesperado de 6,8% nos gastos do governo federal.





