Lafer diz que Brasil terá de ceder para exportar à UE
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domingo, 27 de junho de 1999
Por Roberta Jansen, Mônica Ciarelli, Vladimir Goitia e Gilse Guedes 
Rio, 28 (AE) - O ministro do Desenvolvimento, Celso Lafer, disse hoje que um avanço na liberalização comercial dos produtos agrícolas na União Européia depende da capacidade do Brasil de ceder na área industrial. "É importante observar que uma negociação é uma via de mão dupla", afirmou o ministro, depois de participar da reunião entre os chefes de estado do Mercosul e da União Européia. "Não vamos obter a liberalização agrícola sem darmos algo entre troca."
Lafer explicou que a maior dificuldade está no acesso de produtos agrícolas brasileiros aos mercados europeus em função das barreiras impostas pelos países da região. "Eles oferecem subsídios à produção e à exportação", afirmou o ministro, referindo-se ao fato que a medida torna menos competitivo o produto nacional. Ele lembrou que não serão simples as negociações com a França, um dos países que mais pratica o protecionismo comercial. "Eles têm suas posições e interesses e nós vamos pôr os nossos", disse. "Não é fácil compor, mas há espaço para negociações."
O ministro lembrou ainda que a formação de uma área de livre comércio com a União Européia não interfere nas conversas com a área de Livre Comércio das Américas (Alca), nem com a nova rodada de negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC), que começa em novembro. "Nossa prioridade é operar nesses três tabuleiros", disse. "Isso significa que temos fichas para todos esses jogos."
Empresários - O presidente do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), Roberto Teixeira da Costa, fez hoje uma mea culpa sobre a apatia, o desinteresse e a falta de agressividade do empresariado brasileiro em relação às negociações comerciais multilaterais do País. De acordo com Teixeira da Costa, também representante brasileiro no Fórum Empresarial Mercosul-União Européia, um dos grandes desafios da sociedade civil é tomar a iniciativa de apresentar propostas que permitam obter benefícios para o Brasil.
Teixeira da Costa e o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha, Ingo Ploeger, entregaram ao presidente Fernando Henrique Cardoso e ao chanceler alemão, Gerhard Schrder, um documento com as principais preocupações do setor privado brasileiro sobre as futuras negociações comerciais entre o Mercosul e a União Européia. "É bom não esquecer a necessidade de fortalecer o Mercosul, que precisa estar com as arestas aparadas para iniciar essas negociações", acrescentou.
Ele lamentou que, neste momento, os membros do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) não estão "vivendo mais uma lua-de-mel", mas uma fase de pendências que podem prejudicar o futuro do bloco.
"Precisamos ter cuidado nessas negociaçãos com a União Européia porque, com certeza, não teremos um almoço de graça", alertou o presidente da Ceal. O empresário "isentou" os países europeus de "serem responsáveis", em parte, do desempenho fraco das exportações brasileiras, mesmo depois da desvalorização do real. "Eu não daria um peso excessivo às barreiras comerciais impostas sobre nossos produtos, mas à falta de visão exportadora de nosso empresariado", disse Teixeira da Costa.
Nafta - Entre outros fatores que tem prejudicado a balança comercial brasileira, Teixeira da Costa citou a forte queda dos preços das commodities no mercado internacional e o reduzido financiamento às exportações. O presidente da Ceal disse também que os empresários brasileiros temem mais a criação de uma zona de livre comércio com o Nafta (área de Livre Comércio da América do Norte) do que com a União Européia. "Na minha opinião, acredito que a proximidade geográfica e a agressividade exportadora dos Estados Unidos provocam esse temor", disse Teixeira da Costa.


