São Paulo, 19 (AE) - As "firmas de ladrões", como são chamados os grupos que roubam cargas em São Paulo, têm setores independentes. Para evitar a identificação, os participantes de um setor não conhecem os dos demais. Nas firmas o primeiro trabalho é feito pelo chamado mentor. É o responsável pelo planejamento do roubo. Recebe os detalhes do tipo de carga mais procurada na praça e encaminha o esquema para a segunda etapa: a da execução.
São ladrões recrutados que recebem a instrução do que roubar e onde encontrar a carga. Com o roubo concretizado, a sequência do planejamento é a entrega do caminhão e a liberação do motorista. Os ladrões já sabem onde devem deixar o veículo com a carga. Nessa etapa um outro grupo, geralmente de no máximo quatro pessoas, segue com o caminhão para um depósito. As instruções são passadas geralmente por celular ou telefone comunitário. Com a carga no depósito, o responsável é quem vai tratar com o receptador. Empresário - A polícia chama o receptador de empresário do crime. É ele quem faz a encomenda e põe a mercadoria roubada em lojas, armazéns, mercearias e até em magazines. O esquema mafioso, segundo o delegado Frederico Vesentini, da Delegacia de Furtos, Roubos e Desvios de Cargas, dificulta a identificação de todos os participantes da "firma de ladrões".
É tão perfeito o esquema que determinadas cargas são roubadas pela manhã e, no começo da noite, já passam a ser mandadas para municípios da Grande São Paulo ou outros Estados como Paraná, Santa Catarina, Rio, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O policial informou que a falta de diálogo entre as Polícias Militar, Federal e Rodoviária dificulta o combate ao roubo de cargas. Ele quer maior fiscalização aos caminhões nas estradas. "Os transportadores, na ânsia de ganhar, aceitam qualquer mercadoria sem discutir a procedência". Estranho - Sobre o envolvimento dos motoristas no roubo ou desvio da carga, Vesentini dá como exemplo queixas apresentadas. "Ninguém vai à delegacia assim que o caminhão é levado pelos ladrões ou o motorista é libertado". Ele disse que o motorista telefona para a transportadora e é aconselhado a procurar a delegacia somente no dia seguinte. "É estranho porque deveriam orientar a ir à polícia em seguida, para que pudéssemos localizar o caminhão, prender os ladrões e recuperar a carga". Ele acredita que, agindo dessa maneira, as transportadoras fazem acertos por causa do seguro.
A falta de informações nas notas fiscais dos lotes das mercadorias roubadas têm dificultado o trabalho da polícia para a identificação do receptador. Quando sabem de uma oferta de determinado produto eletrodoméstico ou eletroeletrônico, a preço bem abaixo do valor real em lojas da capital, os policiais da Delegacia de Furtos, Roubos e Desvio de Cargas têm comprado algumas peças na tentativa de identificar a procedência. O objetivo é saber da indústria o destino da mercadoria. A polícia suspeita que, com uma nota fiscal, os comerciantes "esquentam" as mercadorias roubadas e compradas dos receptadores.
"Não temos tido a colaboração dos fabricantes porque a identificação na nota fiscal inexiste", diz Vesentini. "As fábricas garantem não ter como informar para quem foi feita a venda e a entrega". As mercadorias roubadas são vendidas por 40% do valor de mercado. Punição - A polícia quer que o receptador tenha a mesma punição que o assaltante. "O ladrão pega de 3 a 6 anos de prisão e o receptador fica pouco tempo na cadeia". No mês passado, os policiais prenderam um comerciante que comprara parte dos CDs de conjuntos de pagode como o Só Pra Contrariar, roubados de um depósito da Philips, em Guarulhos. Ele ficou dez dias na cadeia e foi liberado pela Justiça. "Decisões como essa incentivam a impunidade", advertiu Vesentini.
Joanilson Betonte, de 50 anos, é apontado pela polícia como um dos ladrões de cargas mais conhecido do Estado. Fugitivo do 93.º Distrito Policial, do Jaguaré, na capital, desde novembro de 1994, onde cumpria condenação por roubo de carga, Betonte, além de assaltar, usa o nome falso de Josué Donizete Sabino para carregar em transportadoras e desaparecer com a carga. Ele é acusado de ter furtado uma carga de pneus avaliada em R$ 50 mil no dia 21 de maio. Com a identidade falsa apresentou-se na Transportadora Equatorial da Amazônia, na capital. Usando um caminhão roubado, carregou. O destino da entrega seria o Paraná. A carreta vazia foi encontrada no dia seguinte na Rodovia Raposo Tavares, em Assis. Policiais da Delegacia de Furtos, Roubos e Desvio de Cargas estiveram na casa da família do ladrão, em Osasco. Souberam que tem conversado com a mulher por telefone. (R.L.)

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