Quando a internet se popularizou em meados da década de 1990, o termo usado para se aventurar em sites e salas de bate-papo era navegar. Através de buscadores podia-se chegar às mais diversas páginas, com um incontável número de assuntos. Passados mais de 20 anos, o mundo digital está completamente estabelecido, mas uma série de questionamentos sobre um lado obscuro da rede ganha amplo destaque a partir de fatos como o massacre promovido por dois ex-alunos na escola Raul Brasil, em Suzano (SP), no último dia 13. A chamada deep web – termo livremente traduzido como internet profunda – reúne todo o conteúdo disponível, mas que não é encontrado por ferramentas de busca. Aproximadamente 95% do que está na internet se encontram nesta “camada” privada, em um ambiente de acessos criptografados, difíceis de ser rastreados. Além de artigos científicos, sites com acervos de livros, há uma parte perigosa desse universo que é conhecida como dark web, o lado escuro. Neste ambiente, existe a venda de drogas e armas, redes de pedofilia e fóruns de discussão onde grupos fazem apologia à violência e até planejam atos como o que vitimou oito pessoas em Suzano. “Esse conteúdo é tão amplo que não existe força policial suficiente para investigar tudo o que acontece. Nem mesmo há o número necessário de policiais preparados para lidar com o que chega como denúncia, mas as pessoas devem denunciar. Já as famílias precisam estar atentas ao que os filhos fazem”, avalia o delegado Demétrius Gonzaga de Oliveira, chefe do Nuciber (Núcleo de Combate aos Cibercrimes), em Curitiba.

Comércio de drogas e armas e redes de pedofilia são encontrados na dark web
Comércio de drogas e armas e redes de pedofilia são encontrados na dark web | Foto: Shutterstock

Entre os mais de 150 mil casos já investigados pela delegacia especializada desde sua criação em 2005, um deles exemplifica a complexidade do problema enfrentado pelos policiais. Uma mãe chegou ao Nuciber com conversas de conteúdo sexual de seu filho de 11 anos com um homem adulto. Assim que foram analisados os dados, foi comprovado que a criança estava mentindo a idade e incitando os diálogos com conteúdo impróprio. Não foi preciso entrar na chamada deep web ou ter grandes conhecimentos de informática para a criança se envolver em uma grande confusão. “Basicamente, a deep web é um ambiente perigoso porque é mais complicado de ser rastreado. A polícia faz isso, há vigilância, mas é muito mais complexo. Ao mesmo tempo, tem essa parte da internet na qual os hackers atuam, pela liberdade que oferece. Além disso, é um excelente laboratório para vírus e malwares, tecnologias de invasão”, detalha José Simão de Paula Pinto, professor da pós-graduação do curso de Gestão da Informação da UFPR (Universidade Federal do Paraná). O especialista ainda explicou que para acessar a deep web é necessária a instalação de programas específicos e conhecer os endereços, já que não há tecnologias de busca como, por exemplo, o Google nesse ambiente. “Ao mesmo tempo, não é difícil encontrar as instruções na internet, mas requer dedicação”, aponta. Mesmo para identificar se os programas estão instalados em um computador é preciso ter conhecimento. Entre os mais populares está o Tor.

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Nesse universo desconhecido para a maior parte das pessoas, há uma série de expressões e códigos que são utilizados pelos usuários dos fóruns, conhecidos como chans – abreviatura de channel em inglês, traduzido como canal. Eles têm uma interface simples e garantem a postagem de imagens e textos de forma anônima, disponibilizados por um curto período. Esta é a razão para que seja um território tão fértil para reunir pessoas propensas a comportamento preconceituoso, que disseminam cultura de ódio e promovem trotes e ameaças. Alguns desses indivíduos podem ser considerados incel – involuntary celibacy, celibato involuntário – que normalmente são homens que têm dificuldade de relacionamento, muitas vezes são virgens e por isso têm aversão pelas mulheres. Eles têm como tendência disseminar a pedofilia. Há ainda os chamados sancto ou sanctum, os santos, como são considerados os responsáveis pelos atos criminosos. “Essas pessoas são verdadeiras bombas-relógio, capazes de explodir com o mínimo estímulo que possa acontecer. Infelizmente, esses grupos têm demonstrado um potencial para se organizar e a tendência é que aconteça um aumento de casos de violência como o que foi visto em Suzano”, aponta Oliveira.

icon-aspas “Esse conteúdo é tão amplo que não existe força policial suficiente para investigar tudo o que acontece”

A prevenção de comportamentos de jovens que possam ser causadores de crimes é um trabalho delicado. Identificar os sinais de que há algo de errado requer bastante sensibilidade de pais e responsáveis, e vai além de aplicar punições. A vigilância também deve ser feita com cuidado, para que não distancie ainda mais os vínculos. “A verdade é que não há mais como evitar o uso da tecnologia. Não há como proibir. O que é preciso rever é o papel da família. Acompanhando e assistindo de perto para compreender o que se passa”, opina a psicóloga Angela Luziano. Outro importante aspecto é a aproximação por parte dos familiares de diferentes ambientes nos quais o jovem está inserido. A escola é o principal desses meios. Muitas vezes, os sinais de que algo não anda bem podem ser diagnosticados no convívio com os colegas. “Os pais devem ir às reuniões do colégio, buscar jogar um jogo de tabuleiro, ver filmes. Pouco a pouco, há a chance de indícios do que há de errado aparecer”, explica a psicóloga, que lembra que casos como os dos homicidas de Suzano representam o limite. “Alguém que planeja acabar com a própria vida não vê mais valor em nada. Nem na vida do outro. Mas chegar a esse ponto é um conjunto de fatores que pode ser tratado”, conclui.

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