La Balia, filme de Bellocchio, surpreende. Do enviado especial LUIZ CARLOS MERTEN
Cannes, França, 19 (AE) - Uma boa surpresa e uma relativa decepção entre os filmes concorrentes à Palma de Ouro no 52º Festival de Cannes. A surpresa foi La Balia, do italiano Marco Bellocchio. É uma adaptação de Luigi Pirandello, autor ao qual o diretor já recorreu quando fez Henrique IV, com Marcello Mastroianni. A decepção foi Ghost Dog: The Way of the Samurai, de Jim Jarmusch. Não que o filme de Jarmusch seja ruim. É até um dos mais razoáveis do supervalorizado diretor americano. O problema é que dá a impressão de ser um filminho, nada muito especial.
Mas Ghost Dog é interessante, sem dúvida. Lembra um pouco o universo do francês Jean-Pierre Melville, mas no estilo cool de Jarmusch. Forrest Whitaker faz o protagonista. Matador profissional, vive segundo um estrito código de honra. Seu livro de cabeceira é o bushido, o código dos samurais. Durante todo o tempo, a ação é interrompida por letreiros que anunciam verdades absolutas sobre honra e compromisso.
Ao mesmo tempo que vive como um samurai moderno, Ghost Dog é confrontado com uma máfia mal-ajambrada, que não ficaria deslocada numa comédia no estilo de Loucademia de Polícia (ou quase). Esse tipo de descontinuidade entre o personagem e o mundo do crime que enfrenta faz o interesse de Ghost Dog, como se fossem dois filmes diferentes coexistindo na mesma narrativa. Foi isso, segundo o próprio Jarmusch, o que o atraiu no material
permitindo-lhe desenvolver o humor meio frio que é sua característica.
Bellocchio assina com La Balia (pronuncia-se La Bália) seu melhor filme desde Diabo no Corpo. Nome importante do cinema italiano nos anos 60, com filmes como De Punhos Cerrados, ele vem desenvolvendo, desde então, uma carreira desigual, mas não destituída de obras importantes (nem de coerência). La Balia passa-se no começo do século. A mulher de um neurocirurgião tem um filho, mas não consegue estabelecer uma relação calorosa com a criança. Ela nem sequer amamenta o bebê. O pai procura então uma substituta para amamentá-lo. A presença desta mulher desestabiliza a vida do casal, no quadro de uma Itália marcada por protestos sociais.
O cineasta diz que leu o original de Pirandelo há muito anos e deixou-o armazenado num canto escuro do cérebro. Foi sempre um filme que ele quis fazer, mesmo que a possibilidade tenha surgido só há pouco e de forma um tanto fortuita. A RAI, Rádio e TV italiana, propos que ele fizesse uma série baseada em grandes escritores italianos, "tirando a poeira dos clássicos", como disse Bellocchio. Ele chegou a iniciar os prepatrativos para fazer La Balia como um especial de TV de uma hora. Percebeu que tinha um material interessante e montou com o filho produtor, de 25 anos (Pier Giorgio Bellocchio), o esquema para a realização do filme que concorre à Palma de Ouro.
Depois de analisar-se durante anos, Bellocchio tem muito claros os motivos que o levaram a querer fazer o filme: a oposição entre as duas mulheres, a fragilidade mental da esposa, o homem que mede a própria imagem em relação às duas personagens femininas, tudo isso foi fascinante para ele. Não é um grande filme, mas possui densidade, sutileza e um belíssimo trabalho de iluminação. Nada suficiente para ameaçar a hegemonia, por enquanto de Pedro Almodóvar (Tudo sobre Minha Mãe), mas suficiente para elevar La Balia acima da média um tanto decepcionante deste festival.





