Krugman diz que bolha da Bolsa de Nova York deve estourar
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segunda-feira, 10 de maio de 1999
Por Rita Tavares 
São Paulo, 11 (AE) - O professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Paul Krugman considera que está mais evidente do que nunca a existência de uma bolha na Bolsa de Nova York, com a sobrevalorização dos preços das ações. Ele disse estar fazendo a previsão de estouro da bolha nos últimos dois a três anos e, até agora, a profecia não se concretizou. Mas as fortes valorizações recentes levam o economista a prever que esta bolha poderá estourar.
Em seminário promovido pela Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), em São Paulo, Krugman disse que, neste contexto, não há muito que o Brasil possa fazer, "a não ser rezar para que" a bolha não estoure. Se o Fed (o Banco Central dos Estados Unidos) conseguir administrar um eventual crash, reduzindo os juros, isso poderia beneficiar o Brasil, pois o capital sairia em busca de melhor remuneração, disse Krugman. Na outra ponta, se o Fed falhar em administrar a crise, os EUA entrariam em recessão, o que seria muito prejudicial para o Brasil.
Conjuntura brasileira - Krugman defendeu uma redução mais rápida das taxas de juro brasileiras. Segundo ele, uma taxa de 25% ainda é um problema para qualquer economia. O economista americano acha que o Brasil deve se precaver contra a entrada de capital especulativo, porque a crise financeira ainda não foi totalmente superada. Segundo ele, o Brasil, quando superar a crise atual, deveria reduzir sua dependência ao capital externo.
Ele citou o modelo chileno, que taxa a saída, não a entrada do capital, como uma possibilidade a ser discutida. O economista disse que o déficit em conta corrente do Brasil não é tão sério. O problema, reiterou, é como este déficit é financiado. "Se o Brasil pudesse se valer de juros como os países desenvolvidos, não haveria problema", afirmou ele.
Krugman acredita que se a crise brasileira estiver realmente superada, no que ele não se mostrou muito convencido, o Brasil poderia retomar o crescimento econômico rapidamente, repetindo a experiência de crescimento contínuo da Coréia do Sul no passado. Para isso, seria necessária a realização de reformas que viabilizassem as condições estruturais. Segundo ele, o Brasil deve sofrer uma recessão entre 1% e 2% do Produto Interno Bruto em 99 e a inflação deve ficar abaixo de 10%.
Ele admitiu que errou ao prever que a desvalorização cambial traria de volta a hiperinflação. Para Krugman, houve uma generalização, um raciocínio mecânico, que igualou a economia brasileira às asiáticas e essa foi uma das lições aprendidas com a crise brasileira. O que aconteceu com o Brasil foi muito parecido com o que ocorreu com o Reino Unido, quando da desvalorização da libra em 1992.
Dolarização - A proposta de dolarização não é uma boa idéia para o Brasil. "Só faria sentido se o Brasil fosse incapaz de conduzir uma política monetária que fizesse sentido. O Brasil tem perspectivas de se sair melhor do que isso (dolarização)", afirmou. Krugman se confessou muito cético quanto à dolarização porque, segundo ele, "os homens em Washington" sempre estarão muito mais atentos ao que afeta a economia americana do que a um país latino-americano cuja economia seja atrelada ao dólar.
Krugman afirmou, em relação ao risco de ocorrer uma crise financeira mundial, que "temos de assumir seriamente o risco de que vamos ter mais crises e não vamos saber como lidar bem com elas". Ele disse que já não acredita mais que o Fed (o Banco Central americano) saberá lidar tão bem com uma crise caso ela venha a ocorrer. Ele disse estar mais cético em relação à capacidade de o Fed lidar com uma nova crise.
O economista afirmou que as condições para que ocorra um novo ataque especulativo ao Brasil ainda são as mesmas da crise recente, embora ele não acredite que acontecerá um ataque à economia brasileira. Segundo ele, os fundamentos da economia brasileira, sensíveis às crises, não foram alterados. Em relação às consequências da CPI do Sistema Financeiro na credibilidade externa brasileira, Krugman afirmou considerar positivo haver uma investigação sobre atos acontecidos no passado e, segundo ele, isso mostra uma posição de se acertar.
Mercosul - Krugman disse ainda que o Mercosul não é crucial para o desempenho econômico de nenhum dos países envolvidos, principalmente do Brasil. Segundo ele, o Mercosul é mais importante para a Argentina, mas também não é elemento chave. "É bom lugar para presidentes sentarem e conversarem, mas não serve para a condução do dia-a-dia de suas políticas", afirmou. Krugman opinou ainda que a Argentina não corre risco de crise econômica. "Eles têm mecanismos de prevenção contra crise
embora não sejam tão fortes como eles acreditam".


