Bonn, 29 (AE-REUTERS) - Líderes ocidentais ainda estão relutantes em declarar morto Rambouillet, mas o acordo de paz que eles negociaram com um lado do conflito de Kosovo está em frangalhos, disseram hoje (29) especialistas em Bálcãs.
Os ataques aéreos da Otan contra a Iugoslávia fizeram aumentar o apoio entre os sérvios ao presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, que recusou-se a assinar o acordo de Rambouillet com os albaneses de Kosovo, afirmaram.
O objetivo declarado do Ocidente é alcançar uma autonomia para Kosovo, policiada por tropas da Otan, dentro da Federação Iugoslava.
Mas os bombardeios estão permitindo que Milosevic expulse milhares de kosovares albaneses de suas casas no norte da província, no que alguns analistas temem poderia ser uma limpeza étnica precedendo a partição.
"Eu acho que o acordo de Rambouillet é papel desperdiçado", afirmou Matthias Karadi, da Universidade de Hamburgo.
"Precisamos conseguir a realização de uma rodada de negociações que discuta se Kosovo pode permanecer parte da Iugoslávia".
Outros analistas dizem que a independência de Kosovo, apesar de não estar na agenda do Ocidente, parece uma possibilidade.
Wolfgang Petritsch, enviado da União Européia para Kosovo, advertiu inicialmente contra um reconhecimento internacional da independência de Kosovo e sugeriu que o Ocidente deveria armar o Exército de Libertação de Kosovo.
"Mas tenho de dizer que lamento que tudo agora esteja movendo na direção da independência de Kosovo porque é difícil imaginar que os albaneses irão desejar permanecer num estado com os sérvios depois dos massacres", afirmou ele ao jornal Der Standard em Viena.
Analistas dizem que a Otan, que deu início aos ataques aéreos na semana passada, se deu conta que não poderá com as bombas levar Milosevic para a mesa de negociações. A aliança começou agora com a segunda fase de sua campanha em Kosovo, que visa parar a limpeza étnica na província predominantemente albanesa.
Mas todos os analistas questionaram se a Organização do Tratado do Atlântico Norte tem um claro objetivo político e militar além dos bombardeios.
"A Otan está atolada num beco sem saída com os ataques aéreos", afirmou Berthold Meyer, do Centro de Pesquisa da Paz e Conflito de Hesse, em Frankfurt.
"A esperança que Milosevic se curve é pequena. Pelo contrário, desde o início dos ataques aéreos ele tem tentado criar fatos em campo conquistando territórios", disse Meyer.
Analistas argumentam que o objetivo original do Ocidente de autonomia para Kosovo dentro da Sérvia só pode ser alcançado com a derrubada de Milosevic e a introdução da democracia na Iugoslávia.
"Se isso não acontecer", afirmou Jens Reuter do Instituto Sudeste de Berlim, "e Miloservic permanecer no poder como Saddam Hussein, então a única saída possível e imaginável é a separação de Kosovo da Federação Iugoslava através de meios militares, e independência".
A independência ou a partição de Kosovo em áreas albanesas e sérvias causam arrepios nas capitais ocidentais por causa de seu possível efeito dominó nos Bálcãs.
Isto poderia pôr em risco o já abalado acordo de paz de Dayton, patrocinado pelos EUA, que estabeleceu um Estado multiétnico na Bósnia-Herzegovina.
A república iugoslava de Montenegro poderia também ficar tentada a se separar, segundo a analista Marie-Janine Calic, do Instituto de Ciência Política de Ebenhausen, nas proximidades de Munique.
Ela disse que a opinião pública em Montenegro está dividida e que a Otan cometeu um erro ao bombardear alvos na república, já que isto tende a aumentar a simpatia por Belgrado.
"Se Kosovo tornar-se independente, Montenegro irá mais cedo ou mais tarde não ter futuro na República Federal", afirmou ela.
Muitos analistas acreditam que os massacres em Kosovo só podem ser parados com o uso de tropas terrestres, algo que os aliados da Otan têm descartado.
Eles dizem que o Ocidente até agora não está disposto a pagar o preço político do deslocamento de 150.000 a 200.000 soldados necessário para expulsar as tropas sérvias de Kosovo.
"Na minha opinião, as opções são entrar rapidamente com forças terrestres, o que ainda não tem uma concordância política e seria logisticamente muito difícil, ou - isto seria minha preferência - negociar um cessar-fogo envolvendo não apenas a cessação dos bombardeios mas também uma suspensão da ofensiva sérvia em Kosovo", disse Petritsch, da UE.
Um cessar-fogo permitiria a entrada de uma missão humanitária na região onde mais de meio milhão de refugiados foram criados no último ano.
"Caso contrário, o fim vai ser desagradável", acrescentou Petritsch.

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