Kosovo cheio de coisas do dia-a-dia, menos de pessoas
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terça-feira, 25 de maio de 1999
Por Candice Hughes, da Associated Press 
PRISTINA, Iugoslávia, 26 (AE-AP) - Eis algumas coisas que eles deixaram para trás: uma robusta casa de tijolos com flores no jardim, um par de chinelos tamanho infantil, uma confusa cadela marrom e seus filhotes. Uma loja de utilidades. Uma barbearia. Fotos de família. Um berço de bebê. Quatro idosos.
Kosovo é uma terra limpa de pessoas, amedrontada por sinais de ódio e guerra, repleta de destroços de vidas despedaçadas. As Nações Unidas calculam que cerca de 830.000 albaneses étnicos fugiram da província sérvia nos últimos dois meses.
Kosovo tem estado fechado para quase todos os estrangeiros desde que a purgação teve início, mas refugiados chegando às vizinhas Albânia e Macedônia têm contado coisas terríveis ao serem expulsos de suas casas pela polícia e paramilitares sérvios.
No fim de semana, uma equipe da ONU tornou-se os primeiros observadores internacionais a visitar Kosovo. A viagem extraordinária deles, compartilhada com um repórter da Associated Press, ofereceram uma arrepiante confirmação em primeira mão.
"É muito pior do que temíamos", afirmou na segunda-feira o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, o chefe da equipe da ONU.
Você pode dirigir por quilômetros em Kosovo sem ver ninguém na luxuriante terra verde cercada por montanhas. Casas no horizonte parecem dentes de bruxa; seus enegrecidos muros queimados sobressaindo no céu. Os tetos das casas desmoronaram com o fogo. Alguns ainda cheiram a fumaça.
Campos permaneceram vazios. Gado sem cuidados pastam a vontade. Cavalos atravessam as rodovias. Cachorros vagueiam em confusão; os corpos esqueléticos de muitos deles estão espalhados nas estradas, apesar de haver tão poucos carros passando, é difícil imaginar o que os atropelou.
Nas ruas ecoa o vazio.
Muito de Djakovica está destroçado, uma cidade-fantasma. O único som é o gralhar de corvos sob um céu cinzento, tempestuoso.
São muitas as cicratizes de Djakovica. Houve fortes combates lá no ano passado entre forças sérvias e rebeldes do Exército de Libertação do Kosovo e outros espasmos de violência depois que a Otan lançou seus ataques aéreos.
Bombas da Otan demoliram um lado do quartel-general da polícia regional. Lojas estão destroçadas, pilhadas, vandalizadas. Estilhaços de vidros se espalham pelo chão.
É algo que agora você vê em quase todas as partes de Kosovo.
Partes de Podujevo, norte de Pristina, capital da província, estão quase tão silenciosas quanto devastadas. A polícia limpou as vizinhanças albanesas, alguns moradores foram para vilas próximas, mas eles não têm permissão de voltar. O exército minou as margens do rio na parte em que ele passa pela cidade para manter os rebeldes à distância.
Pristina é uma sombra do que era há apenas dois meses. Antes uma cidade multiétnica de cafés, lojas e ruas que fervilhavam de vida, é agora um local sombrio onde poucas pessoas se aventuram a sair de casa. Vizinhanças antes repletas de albaneses, como Vranjevac, estão vazias e silenciosas.
O centro de Kosovska Mitrovica, uma cidade industrial que abrigava 100.000 pessoas, está deserto, seus prédios saqueados e queimados.
A grande loja de departamentos Lux é uma casca vazia. Numa barbearia próxima, água escorre de uma pia quebrada para o chão coberto de estilhaços de vidros e destroços.
Um mês atrás, pessoas de Kosovska Mitrovica começaram a cruzar a fronteira com a Albânia. Eles relataram como a polícia sérvia e mascarados paramilitares efeturaram a limpeza de vizinhanças albanesas, rua por rua.
O sérvio que lidera o governo regional, Zdravko Trajkovic, confirmou a limpeza - mas chamou-a de uma ação "preventiva" da polícia. Do ponto de vista oficial, ele explicou, todo albanês pode ser um simpatizante do ELK.
"As autoridades evitaram que eles fizessem o que pretendiam fazer e salvaram os cidadãos do terror o máximo possível", afirmou ele.
Ao todo, a polícia expulsou 30.000 dos albaneses étnicos da cidade, antes majoritários lá, como eram no resto de Kosovo.
Trajkovic insistiu que os produtos de suas lojas estão seguramente guardados para que os proprietários algum dia possam reclamá-los. Depois de tudo, disse ele, em meio a fantasmagóricas ruínas, Kosovska Mitrovica é uma cidade "onde pessoas de várias etnias viviam em paz".
O discurso oficial do governo iugoslavo é que albaneses étnicos fugiram de Kosovo por causa das bombas da Otan, e não por causa de limpeza étnica. Eles não explicam porque os sérvios também não fugiram.
O espaço sérvio é claramente marcado. Casas e negócios sérvios estão marcados com a cruz sérvia para afastar saqueadores e incendiários.
Muros estão cobertos com graffitis militantes sérvios. "Sérvia - direto até Tirana" (a capital da vizinha Albânia) é o grito de guerra rabiscado na parede de um prédio em Kosovo Polje.
Um caminhão do exército estacionado perto do slogan está coberto com uma lona azul e branca da Acnur, a agência de refugiados da ONU.
Soldados sérvios tentam se misturar à paisagem civil a fim de evitar os mísseis e bombas da Otan que caem diariamente.
Eles viajam em furgões de entrega, em ônibus de passageiros, em pequenos carros compactos, em caminhões de pão - em praticamente tudo menos veículos militares.
Eles acampam em apartamentos civis, restaurantes de beira de estrada, fazendas abandonadas. Eles pontuaram a paisagem com chamarizes - lançadores de mísseis SAM de plástico, tanques disfarçados de empiladeiras de feno, empilhadeiras de feno disfarçadas de tanques. Existem até mesmo rumores de uma ponte de vinil.
Apesar do que diz a Otan, os soldados têm um ar confiante. Eles rechaçaram e fragmentaram o menos armado ELK - e limparam Kosovo de potenciais simpatizantes e recrutas.


