Kosovares travam disputa pelo poder Do correspondente Reali Júnior
Paris, 30 (AE) - Nesta semana decisiva para a aceitação do plano de paz do Grupo dos Oito (G-8), após o acordo de princípio do presidente Slobodan Milosevic, os interlocutores europeus não sabem ainda como conciliar os dois principais líderes entre os albaneses de Kosovo, que deverão participar ativamente do processo de paz quando chegar a hora da volta dos refugiados para casa.
A ausência total de diálogo entre as duas facções pôde ser constatada na semana passada em Paris: o ministro francês de Relações Exteriores, Hubert Védrine, tentou, em vão, reunir o líder moderado Ibrahim Rugova e o principal dirigente do Exército de Libertação de Kosovo (ELK), Hashim Thaci. Na verdade
essa disputa já faz parte da luta pelo poder no pós-guerra.
Tudo foi feito pelas autoridades francesas para reunir na quinta feira o "presidente" moderado de 57 anos de Kosovo e seu "primeiro-ministro", de apenas 29 anos. Mas ambos deixaram a capital sem se encontrar. Aliás, nenhum parecia estar a fim desse encontro, tal o jogo de esconde-esconde entre eles.
Isso apesar de os refugiados de etnia albanesa na Albânia e na Macedônia desejarem que essa reconciliação ocorra o mais rapidamente possível, pois as desavenças entre os dois grupos poderia tornar ainda mais complexo o processo de paz.
Hashim Thaci - tido o como o chefe político incontestável do ELK - considera insuficientes as explicações do dirigente moderado para seus encontros com o presidente Milosevic em pleno processo de limpeza étnica e no momento mais agudo da deportação de centenas de milhares de albaneses de Kosovo.
Rugova, em Paris, quando se referiu ao dirigente do ELK, repetiu sempre a forma condescendente de professor para aluno: "Esse jovem..."
Acertos de contas - Conhecido pelo apelido de "Serpente", o jovem dirigente do ELK conseguiu impor-se na cena política de Kosovo (ele é idolatrado nos campos de refugiados da Albânia e Macedônia) após diversos acertos de contas - nem sempre muito pacíficos. Os dois foram recebidos separadamente pelo ministro Hubert Védrine e apareceram em fotos separadas na imprensa, tornando públicas suas profundas desavenças e mostrando as dificuldades que virão quando ambos tiverem de participar do processo que deverá garantir a segurança da volta dos albaneses deportados pelos sérvios.
Quando as autoridades francesas propuseram uma reunião conjunta com Hashim Thaci durante sua estada em Paris, Rugova alegava falta de tempo, pois os dirigentes da aliança haviam preparado para ele um programa muito apertado e um encontro dessa natureza precisaria ser longo, pois todas as diferenças existentes deveriam ser postas sobre a mesa. Na verdade, os dois estão radicalizando seus pontos de vista, buscando surgir numa posição de força na hora da partilha do poder.
Eles se opõem sobre quase tudo, a começar pelo número de albaneses que ainda se encontram na província. Rugova diz que todos os albaneses já deixaram suas casas, baseando-se numa informação de que Pristina está vazia, uma cidade fantasma. Thaci garante que em Kosovo ainda se encontram 700 mil albaneses.
Rugova tem reafirmado que Slobodan Milosevic continua sendo uma personalidade incontornável no processo de paz e toda negociação passa pelo presidente iugoslavo. Essa não é a posição do dirigente político da guerrilha, que insiste nos ataques aéreos da Organização do Tratado do Atlântico Norte e na reivindicação de mais armamento dos ocidentais para os guerrilheiros, que pretendem transformar Kosovo no Vietnã de Milosevic.
Por isso, os dois têm percorrido as capitais européias, multiplicado seus contatos com os diplomatas e dirigentes da Otan e buscado apoio para a segunda fase da crise nos Bálcãs, a fase política de divisão do poder entre sérvios e albaneses, mas também entre os próprios albaneses. Fica a pergunta: quem será o chefe político de Kosovo quando os albaneses iniciarem o caminho de volta?





