Kohl teria recebido comissões do grupo francês Elf Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 23 (AE) - Praticamente abandonado por seu partido, a CDU, o ex-chanceler alemão Helmut Kohl vê sua situação no caso das contas secretas para doações políticas à agremiação agravar-se a cada dia. Hoje (23), quando ele dizia que não vai revelar o nome dos doadores, pois isso significaria quebrar promessa feita, novas denúncias surgiam envolvendo seu nome, desta vez na França.
Ele é suspeito de ter recebido 256 milhões de francos em comissões do grupo francês Elf para facilitar a venda de empresas da antiga Alemanha Oriental. Segundo o resultado de ampla investigação publicado pelo jornal Liberation, Kohl esteve no centro das negociações, que permitiram à empresa francesa comprar, em 1992, a rede alemã-oriental de postos de gasolina Minol. Na ocasião, o ex- chanceler obteve da Elf compromisso de construção de uma refinaria em Leuna, também no leste do país.
As negociações foram mantidas inicialmente com Loik Le Floc Prigent, o presidente do grupo francês envolvido num escândalo de comissões ilegais que teriam sido pagas ao ex-ministro Roland Dumas para facilitar a venda de fragatas francesas a Taiwan. E acabaram sendo concluídas com o sucessor de Prigent, Jerome Jaffré, designado para o cargo pelo então primeiro-ministro conservador Edouard Balladur.
O dinheiro pago pela Elf, o equivalente a US$ 42 milhões, serviu para "alimentar secretamente" o caixa do partido que controlava o poder na Alemanha. Walter Leisler Kiep, tesoureiro da CDU e conselheiro especial de Kohl, desempenhou papel importante nos entendimentos.
Jaffré, o novo presidente do grupo francês, pretendia interromper a negociação, mas o chanceler alemão enviou carta ao primeiro- ministro francês , datada de 18 de fevereiro de 1994, e exigiu respeito ao compromisso assumido: "Ficaria grato se o senhor usasse de sua influência pessoal para que o grupo Elf declare-se disposto a realizar o projeto conforme contrato assinado. Estou seguro de que seu governo também está interessado em evitar uma crise de confiança nos investimentos franceses e poupar o grupo francês de sérias consequências jurídicas."
Ao participar do lançamento da pedra fundamental da nova refinaria em Leuna, Kohl, que tinha Jaffré a seu lado, afirmou: "Eu sempre disse que utilizaria todo o meu poder para garantir o futuro do triângulo da química." O investimento foi da ordem de aproximadamente US$ 3 bilhões. Não se pode esquecer que todo essa negociação se desenvolveu no período em que Prigent, indicado pelo então presidente François Mitterrand presidia o grupo Elf, sendo que Mitterrand e Kohl viviam um período de lua de mel. Ambos eram considerados os principais responsáveis pelas excelentes relações franco-alemãs.
A construção da refinaria constitui o maior projeto industrial franco-alemão dos últimos 50 anos, mas para o grupo Elf foi talvez o pior negócio de todos dos tempos. No ano passado, Jaffré foi obrigado a autorizar uma provisão nas contas da Elf de 5,4 bilhões de francos, cerca de US$ 1 bilhão por "depreciação de ativos". Ele justificou a medida alegando "maus resultados do investimento na construção da refinaria de Leuna".
Como se vê, o caso Kohl assume novas dimensões internacionais. Os analistas estão convencidos de que o reunificador da Alemanha, um dos principais arquitetos da construção européia e da criação da moeda única, o euro, está definitivamente excluído da vida política alemã.
Quanto ao grupo Elf, está mais do que comprovada sua participação em diversos casos pouco transparentes, através de Elf Aquitaine International, presidida por Alfred Sirven, atualmente desaparecido.





