Paris, 03 (AE) - Helmut Kohl, o ex-chanceler alemão e ex-presidente da CDU (União Democrata Cristã ) irá para a prisão acusado de "corrupção grave?" Há apenas três meses essa pergunta pareceria uma farsa, uma piada de ano-novo ou uma "provocação surrealista". Hoje, segunda-feira 3 de janeiro, com a resolução tomada pelo Ministério Público de Bonn, para iniciar uma investigação contra Kohl por "malversação presumida", a pergunta parece pertinente.
Ninguém acredita no encarceramento do ex-chanceler. Mas o simples fato de que a queixa foi aceita pelo Ministério Público é um "estrondo". O homem que dirigiu a Alemanha durante 16 anos, o autor da reunificação das duas Alemanhas, jogado no banco dos réus, julgado como um subalterno qualquer que tivesse "metido a mão no caixa", é inacreditável!
No entanto, os fatos estão aí. As suspeitas a respeito de Kohl não são superficiais. Antes do Natal, o ex-chanceler reconheceu, na TV, ter recebido doações num total de um milhão de dólares entre 1993 e 1998. É claro que ninguém imagina que Kohl tenha embolsado todo esse dinheiro (afinal de contas, não estamos falando de Yeltsin!). Porém, canalisando-o para o seu partido, a CDU, ele infringia a legislação.
Helmut Kohl reconheceu, de fato, a existência dessas "doações". Em compensação, recusou-se, pelo menos até agora, a revelar o nome das pessoas que "abriram a carteira" (seja por uma "questão de honra", seja para impedir qualquer investigação sobre eventuais facilidades das quais os doadores pudessem ter usufruído a posteriori como "pagamento" por sua generosidade). É essa recusa de Kohl que motiva os prosseguimentos judiciários.
É surpreendente que um homem desta dimensão, que foi adulado na Alemanha, cuja atuação foi frequentemente ofuscante e que é respeitado no mundo todo, seja hoje o alvo de represálias tão violentas.
Obviamente os atacantes são, principalmente, homens do partido inimigo, o partido social-democrata (SPD) cujo líder, Gerhard Schr”der, sucedeu Kohl. O rancor do SPD é explicável: por um lado esse partido foi derrotado por Kohl durante vinte e cinco anos. Por outro lado, Gerhard Schr”der, desde que assumiu, faz uma bobagem atrás da outra, mostra-se desastrado e inábil, retrata-se constantemente chegando ao ponto em que, todas as eleições parciais testemunharam a derrota do SPD e o sucesso da CDU. Schr”der teme agora que as eleições regionais, daqui a dois meses, lhe sejam desfavoráveis.
Mas os inimigos de Kohl existem também no seio do seu próprio partido, a CDU. A onipresença de Kohl, durante tantos anos, enervou os jovens ambiciosos da CDU. Hoje, livres da pesada tutela de Kohl, eles se rebelam e, às vezes, se vingam.
Um homem ocupa um lugar especial neste linchamento "anti-Kohl". Trata-se do homem que sucedeu Kohl na presidência da CDU, Wolfgang Sch„uble. Assim que o escândalo dos fundos secretos eclodiu, Wolfgang Sch„uble, ao invés de proteger seu antigo chefe, "botou lenha na fogueira". Pérfidamente, incitou Kohl a revelar tudo que sabia, inclusive o nome dos doadores.
Mas hoje o jogo muda: sabe-se que Sch„uble na época em que era líder do grupo parlamentar da CDU teria tido implicações em certos movimentos de fundos. Assim que essa história veio à tona
esse indescritível personagem, mais do que depressa mudou de barco, dando uma guinada de 180 graus, colocando-se ao lado dos que defendem Helmut Kohl. Grita contra a tirania dos meios de comunicação que levaram o ex-chanceler, tão gentil, tão honesto, à esses problemas judiciários.
Kohl, abandonado por grande parte da classe política, (seja ela socialista ou cristã-democrata) conserva, entretanto, apoios preciosos: os da opinião pública. O homem velho e acuado continua popular: na "noite do milênio", diante da Porta de Brandebourg, em Berlim, teve direito à uma aclamação impressionante.

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