Khatami tem encontro "promissor" com o papa De ASSIMINA VLAHOU, Especial para a AGÒNCIA ESTADO
Roma, 11 (AE) - O papa João Paulo II definiu como "importante e promissor" o encontro que teve hoje (11) com o presidente iraniano, Mohammad Khatami, o qual encerrou no Vaticano sua histórica visita à Itália - a primeira de um líder iraniano a um país do Ocidente desde a Revolução Islâmica, em 1979.
Não há informações sobre o conteúdo da conversa das duas máximas autoridades religiosas mundiais - Khatami é também presidente da Organização da Conferência Islâmica, formada por 55 países. O encontro durou cerca de 25 minutos e contou com a presença de dois intérpretes.
Temas como direitos humanos, o processo de paz no Oriente Médio, o papel do Irã na região e, principalmente, a situação da minoria católica no Irã - cerca de 10 mil fiéis - foram discutidos na reunião que o presidente Khatami teve com o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Angelo Sodano, logo após o encontro com o papa.
Segundo o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, o encontro entre os dois líderes religiosos foi cordial e ocorreu "num clima ameno e positivo", marcado pelo tom de diálogo entre cristãos e muçulmanos que Joao Paulo II tem promovido com muito afinco durante todo seu pontificado e intensificado em vista do jubileu do ano 2000.
"Ao fim de minha estadia na Itália e depois desse encontro com o senhor, volto à minha pátria cheio de esperança para o futuro", disse Khatami ao papa, pouco antes de deixar a biblioteca pontifícia. "A esperança é de vitória final da ética e da moral, com a paz e a reconciliação", disse ao pontífice, a quem pediu que orasse por ele. "Peço também a Deus que lhe conceda sucesso e saúde", despediu-se Khatami.
Na porta de saída, um dos mulás - termo que define as figuras importantes do clero na religião islâmica - que acompanhavam a delegação oficial de Khatami, de 12 pessoas, fez questão de abraçar e beijar o papa, quebrando o protocolo, para surpresa geral.
O esquema de segurança impediu que as pessoas chegassem perto da Catedral de São Pedro por toda a manhã de hoje. Todos os dias milhares de turistas circulam em torno da basílica e dos muros que protegem a cidade do Vaticano, mas a polícia isolou hoje a região. Um pequeno grupo de dissidentes iranianos conseguiu aproximar-se do local e manifestar-se em frente da basílica.
O presidente do Conselho da Resistência Iraniana, Massoud Rajavi, enviou uma carta ao papa, na qual afirma que os mulás do Irã são como os fariseus que Jesus Cristo descreveu como serpentes em ninho de víboras. "Eles se apresentam como cordeiros, mas são lobos ferozes", diz, citando o Evangelho Segundo São Mateus. O líder dos dissidentes sugere ao papa que não confie na abertura de Khatami e faz referência às restrições aos católicos no Irã. Segundo Rajavi, Khatami deveria ter mencionado os nomes dos dois bispos católicos asassinados no país em 1994.
Antes de deixar a Itália, o presidente iraniano falou sobre o processo de abertura em seu país numa entrevista exclusiva ao jornal La Reppublica. Ele disse que o pilar principal de sua política internacional é a distensão e garantiu que "a república islâmica está vivendo uma fase de evolução", considerando, por isso, "natural que existam divergências, como em qualquer sistema político".
O diálogo com os Estados Unidos, apesar de sinais de abertura, continua difícil, avaliou Khatami. "Queremos o diálogo com os Estados Unidos, mas em bases de paridade e de respeito recíproco", afirmou na entrevista. Ele especificou que, quando fala em diálogo, seu interlocutor é "a nação americana, não o governo". E disse que na relação com os governos o país não vai ceder jamais à força.
"A nação iraniana foi vítima de políticas americanas erradas e a prepotência dos Estados Unidos continua a manter o Irã sob pressão, sacrificando interesses de outros", afirmou, citando como exemplo a oposição de Washington a projetos de intercâmbio energético com países europeus. "No ano 2000, o mundo, que foi bipolar, não pode mais sê-lo. Ninguém pode impor as próprias leis. Isso seria sinal de uma espécie de nova ditadura que poderia vir a afirmar-se", alertou.





