Roma, 10 (AE) - Em seu segundo dia de visita à Itália, o presidente do Irã, Mohammad Khatami, encontrou-se na manhã de hoje (10) com o primeiro-ministro Massimo DAlema e depois declarou aos repórteres que "o mundo está cansado de ver a perpetuação da violência e do terrorismo e quer a paz baseada em respeito mútuo e justiça.
"É necessário instaurar a democracia em nível internacional e recusar qualquer tipo de ditadura", afirmou, ressalvando que os iranianos estão escolhendo um novo caminho, que será bem sucedido no futuro.
O líder iraniano disse sentir-se "orgulhoso, como presidente do Irã, por ter iniciado o diálogo com outras culturas nesse fim de século".
DAlema definiu Khatami como um interlocutor "aberto ao diálogo com outros povos e culturas e atento aos valores da democracia" e afirmou que "é possível trabalharmos juntos por uma relação mais equilibrada e justa entre o mundo mais desenvolvido e rico e os novos protagonistas da cena mundial".
Os dois líderes assinaram acordos bilaterais que prevêem cooperação na área econômica, política e cultural, na luta ao tráfico de drogas, proteção dos investimentos e intercâmbio científico e tecnológico.
Khatami esteve também pela manhã com o prefeito de Roma, Francesco Rutelli, e visitou o monumento ao soldado desconhecido, na Praça Veneza, onde colocou uma coroa de flores.
À tarde esteve em Florença, onde fez um discurso no Instituto Universitário Europeu. Mas sua histórica visita à Itália está sendo marcada por protestos de dissidentes iranianos contra a repressão no país islâmico.
Hoje os exilados que vivem em diversas cidades européias organizaram duas manifestações, uma em Roma e outra em Florença. Na capital, o rígido esquema de segurança montado pelo Ministério do Interior, que conta com milhares agentes da polícia, não conseguiu evitar que alguns ovos acertassem a Maserati azul que o presidente italiano Oscar Scalfaro colocou à disposição de seu hóspede.
Durante a manifestação foi divulgada uma lista de assassinatos políticos no Irã, definida como "os recordes de Khatami" em seus 21 meses de presidência: 320 pessoas enforcadas, dezenas de execuções secretas por motivos políticos, 28 dissidentes assassinados no exterior, 14 ataques terroristas contra a resistência iraniana, 8 escritores e dissidentes assassinados ou desaparecidos.
Aproveitam a visita de Khatami à Itália para protestar também os representantes da religião bahai, a minoria religiosa mais importante no Irã, não reconhecida pela constituição do país islâmico. São cerca de 300.000 adeptos aos quais não são reconhecidos os direitos civis, cujos bens são confiscados, não é dada permissão para trabalhar e seus filhos não podem frequentar escolas. "Desde 1979 mais de 200 bahais foram assassinados", denuncia Franco Ceccherini, porta-voz da comunidade na Itália.
Khatami não fez comentários sobre Salman Rushdie, o escritor anglo-indiano condenado pelo regime dos aiatolás, que o acusam de blasfêmia por seu livro "Versos Satânicos" e que por coincidência está na Itália.
Enquanto Khatami fazia o discurso no Instituto Universitário Internacional de Florença, o escritor falava na Universidade de Turim onde recebeu uma condecoração. "E apenas uma curiosa coincidência",comentou Rushdie, "a menos que tenha sido tudo planejado", brincou.
O governo iraniano deixou entender recentemente que não vai colocar em prática a condenação de Rushdie.
No programa de amanhã, o presidente Khatami tem principalmente o encontro com o papa João Paulo II que está sendo visto como um passo muito importante no diálogo entre as religiões cristã e islâmica.
Desde 1997, Khatami é também presidente da Organização da Conferência Islâmica, composta por 55 países muçulmanos e "é a primeira vez que o líder de uma organização muçulmana tão importante encontra o papa", segundo o núncio apostólico em Teerã, monsenhor Romeo Panciroli.
Atualmente vivem no Irã cerca de 10 mil católicos do total de 100 mil cristãos. Eles podem celebrar seus ritos apenas nos lugares de culto, não podem trabalhar na administração pública ou no exército, nas universidades e nas escolas e é vetado a eles publicar, imprimir e até fotocopiar documentos.
Apesar do rigor no relacionamento com a Igreja católica local, o governo de Teerã tem mantido nos últimos anos uma relação de cordialidade com o Vaticano, com quem divide muitas posições, principalmente em questões de moral sexual e família.
Durante a Conferência Internacional sobre a Mulher de Pequim por exemplo, os dois uniram-se na critica à política da ONU com relação ao controle da natalidade.

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