Kaiser quer paralisar análise do Cade sobre AmBev até fim de inquérito policial
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2000
Por Renato Andrade 
Brasília, 16 (AE) - O presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho, quer que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), do Ministério da Justiça, só conclua seu parecer sobre o processo de fusão das cervejarias Brahma e Antarctica após a conclusão do inquérito policial que investiga a suposta tentativa de suborno de conselheiros do Cade.
Pandolpho esteve reunido hoje cedo com representantes da Comissão de Economia, Indústria e Comércio da Câmara, discutindo o processo de criação da AmBev. "Tenho convicção que o Cade deve esperar o resultado do inquérito policial para a manutenção da lisura desse processo", afirmou.
Pandolpho solicitou aos deputados da Comissão que intercedessem junto ao Cade para impedir que o parecer final do Conselho seja divulgado antes do fim do inquérito policial. O Cade tem 60 dias para divulgar seu parecer final sobre o caso. Na semana passada, todos os conselheiros do Cade, inclusive seu presidente, Gesner Oliveira, votaram a favor do parecer da Procuradoria-Geral do Conselho, pela manutenção da análise do processo de fusão das cervejarias, independentemente do resultado final do inquérito policial.
Hoje a direção da Kaiser ingressou na Justiça Federal de São Paulo com uma interpelação judicial para que a direção da AmBev comprove que a Kaiser é controlada pela Coca-Cola. Na semana passada, os co-presidentes da AmBev, Marcel Telles e Victório De Marchi, em audiência pública da Comissão de Economia da Câmara, acusaram a Kaiser de ser majoritariamente controlada pela Coca-Cola. O presidente da Kaiser reafirmou que a Coca detém apenas 10% do capital da cervejaria. "A Ambev terá que se retratar junto à opinião pública", afirmou.
No encontro com os deputados, Pandolpho ressaltou que o relatório da Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça sobre o processo de fusão das cervejarias Brahma e Antarctica indicava uma série de "enganosidades" e omissão de informações por parte das duas cervejarias. O executivo da Kaiser insistiu que a lei de livre concorrência determina punições para esses tipos de infração e ponderou com os deputados sobre a necessidade de aplicação dessas punições.
Pandolpho acusou a AmBev de ter, em seu quadro acionário
participação de uma empresa estrangeira, a Tinsel Investment Inc., com sede em Nassau, nas Bahamas. Segundo ele, o discurso nacionalista defendido pela direção da AmBev é "mentiroso". De acordo com dados apresentados pelo executivo, 25,93% das ações da AmBev pertencem à Fundação Antarctica; 40,93% à Ecapi (holding da Brahma) e 33,24% à Abraco. Por sua vez, a Abraco detém 98,64% do capital da Ecapi e, do capital da Abraco, 35,9% pertencem a Tinsel Participações, que é controlada pela Tinsel Investiment Inc. O executivo Jorge Paulo Leman, do grupo Garantia, também detém 21,30% do capital da Abraco.
O executivo da Kaiser contestou, com números, a posição defendida pelos co-presidentes da AmBev de que a venda de uma das marcas de cerveja da empresa (Skol, Brahma ou Antarctica) criaria uma empresa menor do que as já existentes. Segundo Pandolpho, atualmente, Skol, Brahma e Pepsi, juntas, produzem 48 789 milhões de hectolitros. Se a AmBev optasse em vender a marca Skol, e fizessem a fusão da Brahma (Pepsi) com a Antarctica, estas duas teriam uma produção de 53,016 milhões de hectolitros, o que significaria um aumento de 9% em relação a atual produção do grupo Brahma. "Em qualquer situação de venda de uma das marcas, o resultado é maior do que o registrado hoje", afirmou.


