Com o conhecimento dos anciãos, as novas gerações do povo kaingang vão aprender a buscar nas manchas florestais da Terra Indígena Apucaraninha, em Tamarana, o sustento para o seu futuro.

O esplendor natural da mata e sua diversidade incomparável são a base do projeto "Vãnh Krãn Krãn - Plantas da Floresta", um empreendimento que está tomando corpo e envolvendo parte das 180 famílias que vivem na comunidade dissidente Água Branca, uma aldeia com autonomia política-administrativa instalada a 12 quilômetros da sede do território, numa localidade conhecida como Toldo Velho.

O pau d’alho, a araucária, o angico, a peroba-rosa, a canjarana, o arranha-gato, o cedro-rosa, as lianas e os cipós, além de outras tantas espécies íntimas do cotidiano dos seus antepassados estão na mira dos kaingang, um povo que sempre habitou as áreas meridionais do território brasileiro pescando, coletando e caçando em completa harmonia com o ambiente natural.

Imagem ilustrativa da imagem Kaingangs moldam projeto para produzir mudas da Mata Atlântica
| Foto: Reprodução

Galhos, caules e sementes vão se transformar em mudas para ajudar na recomposição florestal na Terra Indígena, mas também se tornar uma atividade comercial de interesse público, caso todas as etapas previstas no projeto sejam de fato cumpridas até 2028.

O objetivo é que em poucos anos, a aldeia já esteja produzindo cerca de 100 mil mudas por ano, volume suficiente para atender a demanda de outras Terras Indígenas do Estado e ainda atender prefeituras e particulares que queiram reflorestar fundos de vale em áreas urbanas ou formar coberturas em áreas degradadas com espécies nativas.

A matéria-prima da multiplicação será coletada em incursões pela vegetação dos fundos de vale e do entorno de nascentes, na fração da cobertura florestal que restou na Terra Indígena, demarcada em uma área de 15 mil hectares.

PRIMEIROS PROGRESSOS

Nos últimos meses, os indígenas já tomaram algumas decisões e fizeram progressos, contaram à reportagem o líder da Associação dos Moradores da Aldeia Indígena Água Branca II, o kaingang Valdinei Deolindo, e a ativista Francesca Amaral, uma servidora municipal de Londrina que faz parte do Movimento Popular Anticorrupção Por Amor à Londrina, coletivo apoiador do projeto na fase de elaboração e também no recrutamento de voluntários para sua implementação.

Para Deolindo, reflorestar é a base para reviver o modo de vida tradicional do seu povo, guardada na memória dos moradores mais velhos da aldeia, alguns deles quase centenários. “Tirar a comida e o remédio do mato”, resume. Ele diz que está pensando nas 80 crianças que vivem na aldeia e que acredita que a venda das mudas pode ser a atividade principal da aldeia no futuro.

Hoje, além da ajuda de recursos de políticas oficiais, a comunidade sobrevive com dificuldades do que sai da terra, o plantio de mandioca e milho, além da venda de artesanato na cidade. “A caça está muito difícil e tem que ir pro fundo da mata para encontrar algum tatu ou cateto”, conta. Os anciãos da etnia têm papel decisivo no projeto, conta. Eles vão transmitir aos mais novos a técnica para encontrar sementes e galhos que vão gerar as mudas.

Esta história começou em 2024. Com a ideia de estruturar uma atividade econômica sustentável na sua localidade e ao mesmo tempo manter costumes e tradições, Deolindo foi informado pelos ativistas que defendem a causa Kaingang sobre o programa Itaipu Mais Que Energia, programa de fomento que envolve recursos da binacional com apoio técnico e fiscalização de aplicação da Caixa Econômica Federal.

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São alvos da iniciativa a conservação ambiental, a infraestrutura, a saúde, geração de renda, educação e proteção dos direitos humanos em municípios paranaenses e sul-mato-grossenses. A candidatura dos kaingangs foi exitosa e “Plantas da Floresta” foi selecionada no segundo edital com cerca de R$ 760 mil, com prazo de implementação de três anos, contados a partir de meados de 2025.

FROTA DE PICAPES

Os recursos serão destinados exclusivamente à aquisição de bens e materiais, uma vez que o edital da Itaipu não prevê o pagamento de serviços ou mão de obra. Grande parte do orçamento será destinado à compra de veículos. Uma pequena frota de picapes é essencial para a execução das tarefas: transportar bambu e outros materiais de construção para a construção dos quatro viveiros, o deslocamento entre eles e a venda das mudas fora da aldeia.

O dinheiro também será usado para a estruturação do escritório técnico, com computadores e rádios comunicadores, além de ferramentas para a lida, misturadores, balanças e serras de mesa. Como o edital não paga salários, a mão de obra será voluntária, realizada pela própria comunidade através do sistema de "panelão" (mutirão), onde os membros da aldeia se unem para as construções e coletas de sementes em troca de alimentação coletiva providenciada pela associação.

“A primeira ação que fizemos logo após celebrarmos a conquista destes recursos foi uma grande reunião com a comunidade indígena para que eles escolhessem os quatro locais onde serão instalados os viveiros e o escritório técnico e discutirmos nosso cronograma de visitação em outras cinco comunidades onde vamos repassar este conhecimento de estruturação dos viveiros e da multiplicação das mudas”, conta Francesca Amaral. “Também é um projeto de educação ambiental, de como recolocar a coleta no dia a dia destas comunidades, estimulando o plantio de árvores frutíferas e medicinais. Disseminar mudas de plantas que tratam dor de dente e diarreia, por exemplo, de como conviver com as espécies cujas raízes se extraem as tinturas que eles usam no corpo em rituais”, explica.

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| Foto: Divulgação

BAMBU, PEÇA-CHAVE

Francesca conta que as atividades educativas e a coleta do bambu para a construção dos viveiros e do escritório técnico, que foi batizado de Espaço Saberes da Floresta, já começou. “Já fizemos uma oficina de taipa de pilão”, diz a voluntária, referindo-se a uma técnica construtiva milenar que compacta uma mistura de argila, areia e saibro dentro de fôrmas de madeira utilizando um pilão.

Os viveiros serão construídos com bambus amarrados com cordas de sisal, em formato octogonal, com 15 metros de diâmetro. As mudas serão irrigadas por gravidade com aquedutos também de bambus ligadas diretamente às nascentes. Os vasos serão biodegradáveis, feitos de colmos de bambu. A construção vai envolver homens, mulheres e crianças, sob a supervisão dos anciãos, prevê o projeto.

Além da questão da conexão das novas gerações do povo kaingang com seus saberes ancestrais, o “Plantas da Floresta” tem seus pragmatismos. A recomposição da cobertura vegetal deve gerar um aumento no repasse do chamado ICMS Ecológico, que compensa os municípios que mantém em seus limites áreas preservadas. Como Tamarana passaria a ter um pedaço maior do bolo do programa e tem uma legislação local que garante o repasse proporcional aos indígenas, o plantio das mudas vai significar também mais receita para a aldeia.

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