Paris, 04 (AE) - Diante de uma platéia de prestígio, constituída por governantes europeus e africanos reunidos no Cairo, o líder líbio, coronel Muamar Kadafi, não perdeu a ocasião para dar seu show - assumindo a postura teatral que lhe é característica - ao afirmar no encerramento de seu discurso: "A áfrica não tem necessidade de democracia, mas sim de bombas dágua."
Pouco antes, Kadafi havia se reunido com o presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, insistindo na necessidade de restabelecer uma maior aproximação com a União Européia, esquecendo-se que atualmente a existência de um sistema democrático é indispensável para um país que esteja interessado em desenvolver relações com a comunidade.
O presidente líbio foi o único ponto discordante do encontro de cúpula encerrado hoje. Ele começou chamando atenção pelo seu atraso de 15 minutos na sessão inaugural - todos os 70 participantes da cúpula já estavam reunidos quando Kadafi apareceu. A atitude irritou o presidente egípcio, Hosni Mubarak, que chegou a adverti-lo com um gesto de mão.
Isso não evitou suas críticas a dois países europeus, França e Portugal, tratados de "potências coloniais" que procuram dar lições a áfrica como se pretendessem ajudá-la. Na véspera, a França, por meio de seu presidente, Jacques Chirac, havia assumido o compromisso de anular o total da dívida bilateral com os países do continente africano no valor de US$ 6.690 bilhões, enquanto Prodi defendeu um novo modelo de parceria para permitir uma melhor adaptação da áfrica à nova economia.
Essa aparente boa vontade dos dirigentes europeus, entretanto, nem sempre tem sido acompanhada de gestos concretos. O exemplo mais recente é o do cacau da Costa do Marfim. Durante quatro anos, esse país, grande produtor do produto, liderou uma cruzada junto à União Européia para defender o verdadeiro chocolate, fabricado unicamente com cacau. Mas o Parlamento Europeu acabou aprovando, em março, uma nova orientação que libera a utilização de outras substâncias vegetais (MGV) para a fabricação do produto. Essa decisão vai causar uma forte queda da demanda européia de cacau, devendo a Costa do Marfim perder receitas anuais estimadas em US$ 300 milhões.
Como se vê, Muamar Kadafi parece não estar inteiramente desprovido de razão.

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