Trípoli (AE-AP) Após 30 anos de ferrenho controle de Moammar Kadafi sobre a Líbia, quase tudo o que se fala sobre ele é superlativo. Numa recente edição em inglês do jornal estatal Al-Zhaf Al-Akhdar, um admirador escreveu, com entusiasmo exagerado, que os dentes de Kadafi são "naturalmente imunes a manchas" e que quando ele "solta um grande sorriso, seus dentes naturalmente brancos liberam uma radiação fértil com doce prazer e real felicidade".
É a retórica do velho estilo de culto à figura de Kadafi em sua terra.
Mas no estrangeiro, ele quer ser visto como um homem de estado moderno e amante da paz. "Nós não somos piratas, rebeldes ou terroristas", disse ele a homens de negócio da áfrica, Europa e ásia reunidos em Trípoli para uma conferência de investimentos organizada há algumas semanas para coincidir com o 30º aniversário do golpe que o colocou no poder.
Alguns diplomatas dizem do os anos turbulentos de Kadafi estão terminados. Ele sofreu sanções internacionais suspensas por ter entregue a tribunais do ocidente dois libaneses acusados
em 1988, por explodirem o avião da Pan Am, vôo 103, sobre Lockerbie, Escócia. Aparentemente, ele não esteve envolvido em outra explosão que derrubou um jato francês em 1989.
Os EUA enviou aviões de guerra em ataques de punição contra a Líbia duas vezes nos anos 80 e pressionou as sanções no caso do vôo 103. Mas no início deste ano, o ex-funcionário do Departamento de Estado Herman Cohen fez uma visita não-oficial para promover relações mais amistosas.
"Nos últimos anos não tem havido nenhum ato de terrorismo atribuído à Líbia", disse Cohen à Associated Press após sua viagem. "Está bastante claro que ele (Kadafi) deseja manter relações próximas com os EUA". Ele está gastando o dinheiro proveniente do petróleo para a ajudar a erradicar doenças na áfrica ao invés de apoiar grupos rebeldes. Kadafi está abrindo seu país aos investimentos estrangeiros. E o antigo financiador dos grupos rebeldes africanos está insistindo nos esforços de paz nas guerras civis no Congo e no Sudão.
Kadafi não cortou, porém, seus laços de amizade com alguns amigos duvidosos. Entre seus convidados para a reunião especial da Organização da Unidade da áfrica, há algumas semanas, estava Foday Sankoh, de Serra Leoa, cujo grupo rebelde realizou uma campanha de terror contra civis que incluiu a amputação de mãos, pernas, orelhas e lábios naquele país, antes da assinatura do tratado de paz em julho. Mais de uma década atrás, Sankoh e Charles Taylor, comandante militar da Libéria, que tornou-se presidente, treinaram juntos na Líbia
No ambiente doméstico, Kadafi continua a governar com mãos de ferro. Ele mesmo dirigiu uma parada, com duração de cinco horas, que celebrou seus 30 anos no poder, de sua cadeira, dizendo aos seus homens, via walkie-talkie, quando mover os equipamentos utilizados no evento. Ele indica todos os oficiais militares e servidores públicos, inclusive os dos escalões mais baixos. Altos oficiais são aposentados enquanto jovens, antes que tornem-se um perigo, geralmente com dinheiro suficiente para abrirem butiques ou restaurantes.
A oposição mostra sua cara ocasionalmente. Várias tentativas de golpe foram registradas e, apesar de sua constante troca de residência e da certeza de que ninguém sabe quando ou onde ele estará, algumas experiências foram quase bem sucedidas. Ele foi baleado nas pernas no ano passado e continua a usar muletas.
A riqueza proveniente do petróleo a Líbia produz 1,3 milhões de barris por dia tem ajudado sua sobrevivência, permitindo que ele tome conta dos militares e do público.
Gastos com educação aumentaram a alfabetização dos adultos de 20% quando ele chegou ao poder para 76% nos dias atuais. Serviços médicos são gratuitos. A Líbia tem as melhores ruas de toda a áfria e a maior renda per capita, cerca de US$ 7 mil por ano, de acordo com seus diplomatas.
A riqueza, porém, não é distribuída igualmente. Estatísticas são difíceis de conferir, mas muitos líbios vivem na linha de pobreza, com uma dieta de macarrão e molho de tomate. Os filhos de Kadafi e dos seus ministros exibem roupas e carros importados.
Algumas das idéias de Kadafi, que ele chama de "terceira via", algo entre o capitalismo e o socialismo, têm sido economicamente desastrosas. Um plano para que os trabalhadores do campo pedissem a posse das terras em que trabalhavam fez com que alguns fazendeiros demitissem seus empregados e deixassem suas terras sem uso.
Outras, como sua campanha pelos direitos das mulheres, melhoraram sua popularidade. Seu esquadrão de mulheres guarda-costas é conhecido em todo o mundo e elas também podem ser encontradas ocupando cargos de administração médios na Líbia.
Recentemente, o parlamento tentou diminuir os direitos das mulheres divorciadas, incluindo seu acesso a pensão. Um Kadafi furioso colocou-se em pé em frente á Câmara e rasgou o projeto de lei.

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