JUSTIÇA RÁPIDA
Neste domingo de Páscoa, em que os cristãos comemoram a vitória de Jesus sobre a morte, os ovos de chocolate são muito pouco para a ressurreição. Enfim, celebramos ''feliz Páscoa'' para familiares e amigos. Mas a data sugere também a transposição da data para a realidade contemporânea.
Refiro-me aos fiscais da fazenda do Rio de Janeiro encarcerados e como isso foi possível. Basicamente, juiz e Polícia trabalharam em conjunto, abandonaram a burocracia, adotaram a criatividade e acertaram na mosca. O juiz é Lafredo Lisboa, da 3 Vara Criminal Federal. O bando da propina já colocou US$ 33,4 milhões em contas suíças. A mulher de um dos implicados, Valéria Gonçalves dos Santos, levantou a ponta do tapete sobre a vida do ex-marido (Carlos Eduardo Pereira Ramos) e foi o que bastou para a prisão de todos ser decretada. Mas veja o detalhe: o juiz foi muito cuidadoso com as testemunhas. É diferente de colher um depoimento, primeiro, e entregar quem tem algo a dizer à própria sorte, depois. O juiz sepultou o desdém que assusta as testemunhas e, ao convocar Valéria para depor, protegeu-a com uma grossa cortina. Valéria falou, e como. O juiz disse para os réus que daquele momento em diante todos seriam responsáveis pela segurança dela. Se a mulher tropeçar numa pedra e cair, o juiz sentenciou: a pedra no caminho seria considerada obra deles. Tudo isso foi estratégico: a Polícia, no caso a Federal, foi à casa de Valéria, no interior paulista, e munida do mandado competente encontrou fotos e comprovantes de viagens da cambada para a Suíça. Entre revelar o que sabia ou incriminar-se por tabela, a mulher preferiu cooperar. É assim que funciona: o juiz antenado e os policiais que o ajudaram estão de parabéns.
Nesta Páscoa, oportuno observar que é possível sepultar métodos e comodismos antigos e fazer renascer um sistema que de fato proteja a sociedade e engrandeça os mecanismos institucionais. Foi assim que a casa do chamado ''propinoduto'' começou a ruir. No mesmo Rio, onde o ministro da Defesa, José Viegas, avalia que uma ''marcha da anarquia'' está em curso, mostrou-se que é possível enfrentar de frente e com inteligência o inimigo da moralidade pública e o Estado Democrático de Direito. O juiz José Renato Nalini, presidente do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, diz que ''ninguém mais suporta a violência e a disseminação de toda a sorte de ilicitude''. E mais: ''é mister que a consciência nacional pense em respostas mais céleres e conformes com os postulados constitucionais''. Nalini também está convencido de que ''se a criminalidade atua com toda a desenvoltura e se organiza para melhor atingir a consecução de seus objetivos, não deve existir receio em buscar outras modalidades de realização da Justiça Criminal''. O resumo de um fato e a apreciação teórica do assunto evidenciam que é perfeitamente possível agir, enfrentar e vencer os arrogantes inimigos sociais.





