São Paulo - A Justiça Federal iniciou a devassa fiscal e bancária contra os ''sortudos'' da loteria no Brasil. O juiz Ali Mazloum, da 7 Vara Criminal de São Paulo, decretou, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), a quebra dos sigilos bancário e fiscal do agente de investimentos Sami Goldmann, que ganhou 59 vezes na loteria, entre 1994 e 2002. Tanta sorte está sendo considerada pela Justiça como ''indício de lavagem de dinheiro''.
O pedido de quebra de sigilo foi feito pela procuradora da República Ana Cristina Bandeira Lins. As investigações do MPF tiveram início após o envio de peças de informação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) órgão do Ministério da Fazenda , com a ''lista de pessoas que teriam operações típicas de lavagem de dinheiro''. Elas foram identificadas em reiterados resgates de prêmios por ganhadores com ficha criminal. O MPF requereu ainda a folha de antecedentes de Goldmann. Mazloum autorizou as quebras do sigilo bancário, de julho de 2001 a dezembro de 2002, e fiscal do investigado, de 1998 a 2002.
A lista de prêmios resgatados por Goldmann chama a atenção. Ele ganhou na Sena, na Quina, na Federal, na Mega Sena, na Lotomania, na Instantânea, na Dupla Sena e até na Loteca. Tudo entre 17 de março de 1994 e 28 de outubro de 2002. É tanta sorte que, no ano passado, ganhou duas vezes seguidas na Mega Sena, nos concursos 352 e 353. Foram R$ 16.476,48 e R$ 19.537,11 de prêmio líquido, respectivamente. O ''sortudo'' costumava resgatar os prêmios de forma concentrada. Em 9 de outubro de 2002, por exemplo, ele foi à Caixa Econômica Federal buscar R$ 55.030,03 em prêmios de Loteca, Dupla Sena (3), Mega Sena (2) e Instantânea (1). Nove dias depois ganhou mais R$ 7.085,43 na Mega Sena. A reportagem ligou para os dois telefones de Goldmann. Num deles, atende automaticamente um fax, pelo qual foi enviada uma mensagem que não foi respondida. No outro, ninguém atendia.
A compra de bilhetes premiados, com ágio de 10% a 15%, é uma forma de dar origem a dinheiro ilícito. Segundo o pedido, ''quem tem dinheiro que não pode justificar a origem, com essa operação, passa a poder fazê-lo, dando aparência de legalidade a produto ou proveito de crime''.
A quebra dos sigilos fiscal e bancário passa a ser decisiva para a investigação. Isso porque a Superintendência Nacional de Loterias e Jogos informou ser impossível verificar quais os bilhetes premiados e quais as lotéricas em que foram adquiridos. A Gerência Nacional das Loterias explicou ainda ao MPF que apenas com o código de validação dos bilhetes isso poderia ser descoberto. Mas a questão é que, após os pagamentos, eles são destruídos para evitar uma segunda cobrança do prêmio. A abertura da movimentação bancária do suspeito poderá, segundo o MPF, revelar pagamentos feitos a lotéricas envolvidas no esquema.

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