Uma liminar da Justiça Federal na Paraíba autorizou a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace), em João Pessoa, a manter o cultivo e a manipulação de maconha para fins medicinais. A decisão beneficia 151 pacientes associados que recebem o óleo de canabidiol (CBD), um dos muitos princípios ativos extraídos da maconha. Distante 3,2 mil quilômetros da capital paraibana, a ponta-grossense Maria Aline Gonçalves comemora a decisão.

Ela é mãe de Vítor, de 11 anos. O garoto tem autismo e desenvolveu a Síndrome de Lennox-Gastaut (SLG), uma doença considerada rara pela medicina. Segundo Maria Aline, ele sofre de crises convulsivas graves, que foram amenizadas com o uso do óleo de canabidiol, há um ano. "Antes ele tinha até 15 convulsões por semana. Agora, tem uma crise a cada dez dias", contou. Outra vantagem foi a interrupção do uso de medicamentos pesados. "Ele usava cinco medicamentos com efeitos colaterais graves. Um deles, se usado por mais de um ano, poderia levar a cegueira".

Ao avaliar a evolução clínica do filho, Aline lamenta que o assunto ainda seja um tabu. "Essa decisão judicial foi importante, mas o acesso à planta precisa ser mais democratizado. Tem família que não têm recursos suficientes para importar o canabidiol. Se fosse autorizado o plantio, todos poderiam produzir seu próprio óleo. Isso salva vidas", defende. "Nunca sofri preconceito em relação ao uso medicinal da maconha. Mas, sou a favor, inclusive, da liberação para o uso recreativo", opina.

Imagem ilustrativa da imagem Justiça permite que associação cultive maconha para fins medicinais



O presidente da Abrace, Cassiano Teixeira, disse que pela decisão, a associação poderá continuar a distribuir o óleo pra 151 pacientes. Porém, outros 376 pacientes estão associados e aguardam pelo canabidiol. "Nossa luta nunca foi fácil e não vamos parar. Além desses pacientes, abrimos uma fila de espera. A intenção é chegar a mil pessoas atendidas até o fim do ano. Vamos recorrer novamente à Justiça para isso", adiantou.

Segundo Cassiano, a Abrace começou a funcionar em 2014, fazendo a importação do óleo. No ano seguinte, no entanto, com a alta do dólar, as importações foram suspensas. "Foi aí que resolvemos cultivar, mesmo que ilegalmente, a maconha. Existia um risco grande de prisões aqui, mas resolvemos encarar", lembrou. "Começamos com dez famílias, depois passamos para 30. Quando atingimos a marca de 60 pacientes e ficamos mais visados, começamos a organizar a documentação, pois uma batalha judicial era inevitável", relatou.

O momento de maior tensão para Teixeira foi quando um drone sobrevoou a sede da Associação, na periferia de João Pessoa. "Essa decisão judicial nos trouxe um alívio muito grande. Poderemos continuar a ajudar quem precisa dentro da legalidade", comemorou. Teixeira considera que é preciso "olhar para frente" e derrubar os tabus ligados à maconha. "Essas mães e crianças estão ajudando a derrubar mitos de que a maconha é um bicho-papão. É uma droga? Sim, mas é uma droga que pode salvar, assim como várias outras", argumenta.

Em março de 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a prescrição do canabidiol (CBD) e do tetraidrocanabinol (THC), mas segundo Maria Aline e Cassiano, ainda é difícil encontrar médicos que prescrevam o tratamento com as substâncias. "O Vítor tem uma tia que é médica que não se sente à vontade de prescrever o óleo de canabidiol", expôs. A reportagem entrou em contato com a Anvisa, que deve regulamentar a produção do óleo de canabidiol até o fim do ano, porém a assessoria de imprensa informou que não comenta decisões judiciais.

mockup