Jacir WalterEntrada proibidaSem-terra fizeram barreira ontem na entrada da propriedade Rio Iguaçu, ocupada por 600 famílias anteontemA Araupel S. A., empresa originária do grupo gaúcho Giacometti-Marodim, obteve ontem, na comarca de Quedas do Iguaçu, no Sudoeste, deferimento a pedido de reintegração de posse de sua área de 53 mil hectares, localizada no município, que desde anteontem está parcialmente ocupada por 600 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No ano passado, a empresa já havia obtido um interdito proibitório, como prevenção à possibilidade ‘‘anunciada’’ de invasão.
O interdito, uma espécie de alerta aos sem-terra, para posterior responsabilização criminal por descumprimento de ordem e penas pecuniárias, vale para toda a propriedade, que estaria dividida em 24 mil hectares de matas nativas, 21 mil de reflorestamento, 6,5 mil de agricultura mecanizada e o restante, de edificações e estradas. A empresa aguarda agora pela ordem judicial para que oficiais de justiça, com a requisição de força policial, façam a reintegração.
Os sem-terra acampados na sede da Areupel não pareciam ontem dispostos a deixar o local. Repórteres da Folha e da TV Sudoeste, de Pato Branco, foram barrados na entrada do acampamento pela segurança do MST, armada com foices e facões.
Lideranças do movimento admitiram que a invasão fora planejada e que só se esperava o término da colheita. De acordo com informações extra-oficiais, os sem-terra só querem 15 mil hectares da área invadida.
A Araupel rechaçou ontem qualquer possibilidade de negociar uma eventual desapropriação para assentamento dos invasores. ‘‘Nossa posição é radical, pois não há espaço para negociação’’, disse Roni Chiochetta, diretor da empresa, com sede em Porto Alegre (RS).
A Arapuel atua com agricultura e reflorestamento para suas indústrias madeireira e de papel, localizada em Quedas do Iguaçu. O imóvel onde os sem-terra se fixaram é o Rio Iguaçu, o mais próximo à sede regional da empresa, com 5 mil hectares, acesso pela PR-473 e cujo núcleo em posse dos invasores está a cerca de 4 quilômetros das indústrias. Depois da chegada do primeiro contingente, em vários caminhões, na segunda-feira, poucos sem-terra entraram na propriedade, e ontem não havia indícios de que novos chegassem.
A direção da Araupel sustenta que ‘‘os invasores entraram com armas de fogo, inclusive de grosso calibre’’, mas o coordenador regional do MST e da própria ação, Jaime Calegari, garante que ‘‘as únicas armas eram foices, facões e machados’’.
A Polícia Militar mantém vigilância à distância, e já repassou informações à Secretaria da Segurança. Não havia, pelo menos até a tarde de ontem, nenhum indicativo de preparação de esquema para o despejo dos sem-terra.
A Araupel conseguiu retirar do núcleo central da propriedade 30 máquinas agrícolas, em acordo com os sem-terra. As indústrias produzem mensalmente 2,8 mil toneladas de papel-cartão (da araucária) e 12 mil metros cúbicos de painéis, molduras e vigas (de pinnus).
Segundo Roni Chiochetta, a empresa tem indústrias ‘‘de base florestal e necessita de ampla área para plantar árvores e muitos anos depois colhê-las e novamente plantar’’. Ele acrescenta que gera ‘‘milhares de empregos e milhões em impostos’’, mas tem sua atuação ‘‘ameaçada’’. Segundo o diretor, é a quarta vez que um dos imóveis da empresa é invadido nos últimos três anos. A principal foi a Fazenda Pinhal Ralo, no município de Rio Bonito do Iguaçu, em abril de 96. Das três mil famílias que invadiram a propriedade, mil permaneceram e acabaram sendo assentadas pelo Incra, após desapropriação. ‘‘Já cedemos 27 mil hectares de terras para assentamento’’, relata Roni Chiochetta.
Segundo ele, ‘‘negociar mais área está fora de cogitação, pois isso inviabilizaria a operação de nossas indústrias’’. A maior parte dos sem-terra que entraram no Imóvel Rio Iguaçu é oriunda de um acampamento que havia às margens da BR-158, nas proximidades da Fazenda Pinhal Ralo, formado por excedentes deste assentamento.
Lá ocorreram até o ano passado confrontos entre sem-terra e, segundo eles, ‘‘jagunços’’ da empresa, inclusive com duas mortes entre os lavradores. A única família que morava no núcleo central do imóvel, de funcionários da Araupel, foi liberada pelos sem-terra para deixar o local.

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