Justiça manda despejar 2 mil sem-terra de fazenda em Porto Feliz; eles prometem resistir
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segunda-feira, 08 de fevereiro de 1999
Por José Maria Tomazela 
Porto Feliz, SP, 08 (AE) - A juíza substituta Daniela Botoliero Ventrice, de Porto Feliz, a 120 quilômetros de São Paulo, concedeu hoje liminar em ação de reintegração de posse movida pelo grupo União São Paulo, proprietário da Fazenda Engenho Dágua, naquele município, determinando o despejo dos 2 mil sem-terra que invadiram a área de 300 hectares. O grupo possui outras dez fazendas na região com um total de 16 mil hectares. A invasão começou na madrugada de domingo e foi ampliada hoje, com a chegada de mais 20 ônibus com sem-terra. A ação vinha sendo preparada há seis meses, segundo a coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). "Esse tempo foi necessário para recrutar as famílias na própria região e na Grande São Paulo", disse Giani álvares, do MST.
A juíza determinou a requisição de força policial, se necessário, para retirar os invasores. Ela entrou em contato hoje com o Comando de Policiamento de área Interior-7 (CPAI-7), de Sorocaba, para informar sobre a decisão. O coronel João Oliveira Verlangieri, comandante do CPAI, disse que a PM vai preparar uma operação para a retirada das famílias. Ele sobrevoou a região de helicóptero para reconhecimento do terreno. Se a operação de despejo for necessária, será uma das maiores já realizadas no interior.
A concessão da liminar não surpreendeu os sem-terra, que sabiam que a fazenda era produtiva, segundo Giani. Ela disse que propriedade foi penhorada pelo Banco do Brasil por dívidas e poderia ser levada a leilão. "Achamos possível negociar com o governo." O gerente administrativo e financeiro do grupo, Valdir Ambrósio, negou qualquer penhora ou dívida com órgãos do governo. "O MST errou de alvo, pois a fazenda é produtiva e não tem penhora". Jusatificativa - O líder Gilmar Mauro, que participou da ocupação, disse que a ação se justifica. "É muita terra nas mãos de poucas pessoas". Segundo ele, o plano é trazer cerca de quatro mil famílias já cadastradas para essa região. O cadastramento foi feito nas periferias de Campinas, Sumaré, Limeira, Piracicaba, Sorocaba, Guarulhos, Osasco e São Paulo. Faz parte da estratégia dos sem-terra resistir a uma possível ação policial para a desocupação da fazenda. A estrada de acesso à propriedade foi bloqueada. Só estavam passando hoje veículos com suprimentos e a imprensa.
O superintendente adjunto do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Moyzés Schencker, que chegou na fazenda à tarde, teve que se identificar na barreira montada pelos sem-terra. Ele foi ver de perto a situação, segundo o Incra. A chuva que caía na região não impediu que, após erguer os barracos, as famílias iniciassem a limpeza do terreno para o plantio. "Já fui lavrador e esperei quase 20 anos por isso", disse o ex-vigia Francisco Custódio, um dos acampados. Ele morava no Bairro do Brás, em São Paulo, e inscreveu-se no movimento numa pastoral católica.
A faxineira Gorete Madeira, de Campinas, viajou de ônibus com o filho Pedro, de 12 anos, para participar da ocupação. O marido trabalha como cortador de cana na região de Ribeirão Preto e deve juntar-se à família nos próximos dias. "A gente já não conseguia mais pagar o aluguel do barraco", reclamou. Acusação - O gerente da fazenda acusou os sem-terra de terem destruído dezenas de hectares de canaviais já plantados para construir o acampamento. Segundo ele, foram derrubados também bambuzais e matas de proteção de mananciais, usando a madeira para erguer os barracos. "São pessoas que não entendem nada de agricultura", disse.
A Fazenda Engenho Dágua é uma das mais tradicionais do interior no cultivo de cana de açúcar. Foi fundada no século passado para abastecer o Engenho Central de Porto Feliz, inaugurado em 1878 pela Societé de Sucrries Brsiliennes, mais tarde adquirida pela União São Paulo.
A antiga usina, desativada, funciona como depósito da empresa. Os canaviais que ocupam os 16 mil hectares do grupo produzem 1,3 milhão de toneladas de cana de açúcar por ano. A produção é beneficiada na usina do grupo no município de Rafard. A empresa adquire mais 1 milhão de toneladas de outros produtores.
A invasão da fazenda deverá ser discutida amanhã, em reunião entre o secretário da Justiça, Belizário dos Santos Júnior, e dirigentes do MST, na sede do Incra, em São Paulo. A reunião está marcada desde a semana passada para discutir a questão dos acampados da Fazenda Rio Verde, em Itararé.


