Um homem foi arrancado de dentro de um carro da Polícia Militar e morto a pedradas e pauladas por moradores de uma vila rural em Candeias do Jamari, a 25 km de Porto Velho, capital de Rondônia, no final da tarde da última terça-feira. Ele era suspeito de ter estuprado uma garota de nove anos e matado a facadas o irmão dela, de apenas cinco anos. Segundo a Polícia Militar, Uillian Jeferson de Farias, 33, invadiu a casa onde estavam as crianças sozinhas e passou a abusar sexualmente da menina. Pelo relato posterior da garota à polícia, o irmão dela, ao perceber a cena, teria se assustado, mas avançou no suspeito e foi esfaqueado no peito.
O ataque popular foi o último de uma série de linchamentos registrados neste mês nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do País. No dia 6, um homem de 29 anos foi morto por moradores em São Luís, no Maranhão, após a tentativa de assalto em um bar. Os clientes do estabelecimento amarraram o assaltante em um poste e o agrediram. Ele morreu no local. Um adolescente de 16 anos que acompanhava o assaltante sobreviveu porque fingiu estar inconsciente após as primeiras agressões até a chegada da polícia.
Dois dias depois, um jovem de 19 anos também foi espancado na capital maranhense durante a tentativa de roubo de uma motocicleta. No Rio de Janeiro, pelo menos três casos de linchamento foram registrados neste mês. Em duas ocorrências, os suspeitos de roubo e furto foram amarrados pelos moradores até a chegada da PM.

Insegurança

Na avaliação do doutor em estudos sobre a violência e professor do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Alex Eduardo Gallo, a combinação de vários fatores gera os linchamentos públicos, entre eles, a sensação de impunidade e a insegurança. "As pessoas não acreditam no Estado e agem por conta própria com o apoio da multidão. O Estado cobra do cidadão uma postura justa, mas não aplica a lei de forma igual e não dá exemplo quando envolvidos saem impunes após cometer crimes. Isso vale até para os casos de corrupção" analisa.
Ele ainda afirma que o momento atual com crises em diversos setores contribui para a revolta e o medo das pessoas, que se sentem mais ameaçadas e extrapolam na situação de risco. "Além disso, a mídia sensacionalista explora a violência e passa a ideia de que o problema não tem solução", acrescenta o professor, ressaltando que os linchamentos podem ocorrer em qualquer lugar independente da região ou classe social.

IMPUNIDADE

Para o advogado criminalista Dálio Zippin Filho, presidente do Conselho Penitenciário do Paraná, os linchamentos são influenciados pela multidão que acompanha os crimes, já que na maioria das vezes os participantes não possuem passagens pela polícia ou histórico de violência e agressão. "Individualmente, a pessoa sabe o que é crime, mas ela é levada pela multidão por causa da certeza de impunidade e também devido à dificuldade de identificação dos autores das agressões entre o grupo", comenta.
Na opinião dele, as autoridades de segurança pública também sofrem com o "descrédito" da população, que opta por "fazer Justiça com as próprias mãos". "Sem a prisão que aplaca a sede de vingança, as multidões julgam e condenam os suspeitos sem direito a qualquer tipo de defesa", argumenta. O advogado ainda alerta para a utilização de redes sociais e aplicativos na mobilização rápida e irresponsável dos moradores, como no caso registrado no ano passado no Guarujá (SP), quando uma mulher foi linchada e morta após ser confundida com uma criminosa.
Zippin ainda lembra do espancamento de um adolescente dentro de uma cela no Centro Educacional Masculino em Teresina, capital do Piauí, neste mês. A vítima era suspeita de participar de um estupro coletivo e após delatar outros envolvidos foi colocada em uma cela com três suspeitos do crime. "Isso não foi caso de linchamento. Foi um erro da administração do local de internação, que alegou falta de vagas para isolamentos dos menores envolvidos", critica. (Com Folhapress)

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