Brasília, 10 (AE) - A divulgação, pelo secretário nacional Antidrogas, Walter Maierovitch, de uma operação secreta de combate ao narcotráfico que será feita entre o Brasil e a Bolívia desencadeou nova crise no governo, envolvendo a Senad e o Ministério da Justiça. Hoje, o ministro José Carlos Dias expediu uma nota oficial condenando a atitude de Maierovitch, assegurando que "não acredita na eficácia de qualquer operação" divulgada previamente.
"O ministério da Justiça não acredita na eficácia de qualquer operação destinada a reprimir o tráfico de drogas ou outras formas de crime organizado, que tenha seus objetivos, métodos e âmbito geográfico previamente divulgados", afirma a nota. "Nesse sentido, o ministério lamenta o teor das declarações prestadas pelo secretário nacional Antidrogas."
Na nota, o ministério afirma, ainda, que a atitude de Maierovitch jamais será adotada pela PF e volta a ressaltar que o combate ao tráfico é responsabilidade da instituição. "O ministério da Justiça continuará a orientar o Departamento de Polícia Federal, orgão constitucionalmente responsável pela repressão ao tráfico de drogas, a se pautar pelo uso de procedimentos e técnicas que, amparadas na discrição e sigilo, permitam um efetivo combate a essa prática criminal".
O secretário Antidrogas não quis responder a nota de José Carlos Dias. Ele passou toda a tarde em seu gabinete e manteve silêncio sobre o assunto. O general Alberto Cardoso viajou para a Bahia. No Palácio do Planalto, o clima era de tensão e de certeza de que a crise entre o ministério da Justiça e o gabinete de Segurança Institucional agravou-se depois das declarações de Maierovitch e da nota do ministério. O presidente Fernando Henrique Cardoso foi surpreendido pela iniciativa do ministro da Justiça e não tinha conhecimento da nota enviada à imprensa.
Provocado, ele limitou-se a repetir, por intermédio do seu porta-voz, pedido para que os órgãos de governo entrem em harmonia. "É preciso haver (harmonia) também entre os orgãos que trabalham no combate ao narcotráfico", afirmou o porta-voz. Tal declaração fora feita por Fernando Henrique, há dois meses, quando a disputa entre Alberto Cardoso e José Carlos Dias recomeçou.
Com novos personagens, a crise entre a secretaria - subordinada ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso - e o ministério da Justiça se prolonga desde março do ano passado, quando foi substituído o então diretor-geral da Polícia Federal, Vicente Chelotti. Cardoso indicou o delegado João Batista Campelo para o cargo, confrontando indicação do então ministro da Justiça, Renan Calheiros, que defendeu o nome do delegado Vantuir Jacine, que ocupou interinamente a diretoria da PF.
Esta não é a primeira divergência em público, ao longo da gestão de José Carlos Dias, entre Maierovitch e a Polícia Federal, por causa de declarações do secretário a respeito do combate ao narcotráfico. Dias antes do seu início, a chamada operação Mandacaru, que também seria executada sigilosamente no sertão nordestino, tornou-se pública após anúncio feito em uma entrevista coletiva pelo secretário e pelo general Alberto Cardoso. Apesar de terem sido efetuadas prisões e eliminados pontos de plantio de maconha na região, os resultados foram considerados pela PF como de pouco efeito.

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