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Justiça de Londrina condena palestrante por morte de buldogues

Morador de Londrina alega que o primeiro animal “escapou” das suas mãos no banho e admite ter dado “tapas corretivos” no segundo

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

O juízo da 3ª Vara Criminal de Londrina condenou o master trainer paraibano Gabriel Paiva Cortez Costa, 31, ao pagamento de uma multa que ultrapassa R$ 83 mil pelo crime de maus-tratos contra animais. Conforme a decisão, do final de outubro, Costa foi responsável pela morte de dois filhotes da raça buldogue francês, que tinham cerca de cinco meses, entre o final de 2018 e o primeiro semestre de 2019.

 

Justiça de Londrina condena palestrante por morte de buldogues
iStock
 


Enquanto o primeiro filhote foi cremado por uma empresa de Londrina, o segundo foi atendido em uma clínica particular com um traumatismo cranioencefálico e hematomas nos olhos, focinho e interior da boca, e morreu após uma parada cardíaca. Este mesmo animal já havia sido atendido uma semana antes com uma fratura na pata considerada incomum para a raça, o que levantou forte suspeita entre os veterinários que atenderam o animal. 


Advogado e palestrante, Costa reafirmou à reportagem o que havia dito em juízo. "É uma grande tristeza que o primeiro fato, um acidente no banho, tenha virado tudo isso e ainda alimentado pelo Poder Judiciário em primeiro grau", disse. A defesa recorreu ao Tribunal de Justiça do Paraná.  


Conhecidos por serem tranquilos, companheiros e atenciosos, até mesmo com as crianças, os cães da raça buldogue francês vivem, em média, 14 anos, e podem atingir até 14 quilos e 40 centímetros de altura. Um filhote pode custar até R$ 5 mil.  


De acordo com os fatos apurados pelo juiz Juliano Nanuncio, a morte do primeiro filhote, uma fêmea branca batizada de Akira, ocorreu no início de 2019 após a cadela se sujar na própria urina. Levada ao banho pelo tutor, ela teria caído das mãos dele, vindo a morrer instantaneamente. Costa alega ter se tratado de um acidente. Ele contratou os serviços de um crematório para animais de pequeno porte, deixando de realizar um exame até mesmo para "afastar qualquer denúncia de maus-tratos", mencionou o magistrado.     


Entretanto, os fatos que complicaram a situação do master trainer, conhecido por seus 262 mil seguidores no Instagram por publicar conteúdos voltados ao desenvolvimento pessoal, dizem respeito à morte do segundo filhote. Macho e de cor cinza, Haka foi adquirido por Costa em Curitiba e ganhou o mesmo nome de um dos métodos de desenvolvimento de habilidades pessoais vendido por ele.  


Haka foi levado a uma clínica particular em maio de 2019 com uma fratura articular “pouco comum” na pata traseira esquerda, segundo os autos do processo, e passou por uma cirurgia que demandou a utilização de pinos. Enquanto uma veterinária disse à Justiça que ouviu Costa admitir que brincou com o animal dando-lhe “tapinhas no bumbum”, o réu disse que Haka já estava com a pata machucada quando foi adquirido. Entretanto, essa versão foi contestada pela profissional que vacinou o filhote na mesma clínica. Na ocasião, Costa foi alertado pela veterinária para que tomasse mais cuidado, especialmente por ser um homem “musculoso” e os filhotes, muito sensíveis.  


Depois de uma semana, Haka foi levado à clínica pelo tutor praticamente morto. Conforme o relatório da Justiça, o filhote foi levado a outra clínica privada, que atua no atendimento de emergências. Porém, nada pôde ser feito e o animal morreu em decorrência de uma parada cardíaca.   


Conforme apurou a reportagem, o CRMV (Conselho Regional de Medicina Veterinária) foi acionado. O Boletim de Ocorrência foi formalizado pela veterinária que veio a se tornar a testemunha-chave da Justiça. Após determinação da Polícia Civil de Londrina, o corpo de Haka foi retirado às pressas do crematório para animais por outra profissional e levado para um exame na UEL (Universidade Estadual de Londrina). O laudo revelou um "traumatismo cranioencefálico em decorrência de tapas no focinho, hematomas em região ocular bilateral, hemorragia na boca, choque neurogênico e parada cardiorrespiratória", atestou o documento.


Desde 2018, uma resolução do Conselho Federal de Medicina Veterinária estabelece que médicos veterinários e zootecnistas têm o dever de denunciar situações suspeitas de maus-tratos. Entretanto, muitos acabam deixando de denunciar por medo de represálias. De acordo com a principal testemunha, não foi diferente com o caso dos dois cães. Por isso, ela teve que buscar ajuda para não deixar de fazer a denúncia. 


O QUE DIZ A DEFESA 


Para o advogado Carlos José Cogo Milanez, da defesa de Costa, não há comprovação de agressão contra os animais. "Quando o Gabriel nos procura, ele diz, 'olha, realmente encontrei o cachorro machucado, ele estava num estado convulsivo, tanto que o levei à clínica'. Ele nos traz essa argumentação, inclusive juntamos prova pericial no processo apontando algumas falhas de procedimentos", disse. 


De acordo com ele, o segundo filhote foi encontrado por Costa se debatendo, em "estado convulsivo" em decorrência do tratamento que realizou para curar a fratura na pata traseira. Conforme o relato do acusado, os ferimentos na cabeça e no rosto de Haka teriam sido causados pelo próprio animal.


A reportagem também conversou com Gabriel Paiva Cortez Costa, por meio do novo perfil dele no Instagram. Ele preferiu não comentar detalhes do processo e disse que busca se apegar a um versículo bíblico: "Não há nada que esteja escondido que não venha a ser revelado". 


COMO DENUNCIAR 


Em Londrina, denúncias de maus-tratos aos animais podem ser protocoladas na página da Diretoria de Bem-Estar Animal, da Sema (Secretaria Municipal do Ambiente). Conforme a pasta, as informações pessoas dos autores das denúncias são preservadas. 

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