São Paulo, 10 (AE) - A viúva Cleide Lourdes Campaner Aguiar perdeu hoje a primeira batalha pela posse da fortuna pessoal do banqueiro Amador Aguiar, fundador do Bradesco, avaliada em US$ 800 milhões, com quem se casou em regime de separação de bens em 1990. O juiz da 4ª Vara da Família de São Paulo, José Roberto Fourniol Rebello, anulou o testamento no qual o banqueiro instituíra Cleide, sua segunda esposa, como sua herdeira universal, em detrimento dos demais parentes.
Constavam ainda disposições testamentárias onde Lia e Lina Maria Aguiar não eram consideradas filhas adotivas do banqueiro, embora registradas por ele como tal. Aguiar determinava o cancelamento do registro e a anulação do testamento anterior, no qual as filhas eram contempladas como herdeiras, juntamente com familiares do banqueiro.
A decisão acolheu integralmente uma ação ordinária de anulação do testamento proposta em março de 1991 pelo advogado José Luiz Pires de Oliveira Dias, em nome do engenheiro João Aguiar Alvarez e seis outros netos do banqueiro. Com a anulação, passa a ter validade somente o testamento anterior, lavrado em 20 de maio de 1986, no qual os netos são contemplados como herdeiros. Cleide, tão logo seja publicada a sentença no Diário Oficial, terá 15 dias para recorrer ao Tribunal de Justiça.
Demência - Amador Aguiar morreu aos 86 anos na capital paulista, no dia 24 de janeiro de 1991. O testamento agora anulado foi feito um mês e 12 dias antes da morte do banqueiro, que fundou um império de 63 empresas e 112 mil funcionários, capitaneado pelo Bradesco, o maior banco privado brasileiro.
O testamento foi declarado nulo pelo juiz Fourniol Rebello pela não obediência aos requisitos essenciais estabelecidos no artigo 1.632 do Código Civil. Isto é, não foi lavrado nem na presença do banqueiro, nem das testemunhas. Veio pronto do cartório somente para assinatura.
O juiz considerou também o que chamou de incapacidade de Amador Aguiar. Já em novembro de 1989, mais de um ano antes do testamento, o médico Ivan Estevam Zurita Júnior declarava que Aguiar apresentava "quadro de confusão mental, devido a quadro clínico de hipoxia (baixo teor de oxigênio) cerebral por broncopneumonia e isquemia (baixa circulação do sangue) cerebral por arteriosclerose".
Amador Aguiar fora internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Gastroclínica, em 28 de setembro de 1989. Foi diagnosticado "encefalopatia de binswouger, uma forma de insuficiência vascular cerebral". Saindo do hospital, passou 11 meses em casa, com os cuidados constantes de enfermagem. Não se sentindo mais em condições físicas de continuar no cargo, Amador Aguiar afastou-se da presidência do Conselho Superior de Administração do Bradesco em fevereiro de 1990.
Testemunho - Foi fundamental para a anulação do testamento o testemunho de Hysao Mytsumori, que trabalhou como motorista particular de Amador por 30 anos. Segundo Mytsumori, o banqueiro, depois de ficar doente, um ano antes do falecimento, "ficou mais parado".
O banqueiro, segundo o motorista, "repetia as coisas, não falava coisa com coisa, precisava de enfermeira para ajudá-lo na locomoção", disse Mytsumori .
Ele revelou ainda que Aguiar usava cadeira de rodas para se locomover nos últimos dias de vida. O banqueiro sofria de incontinência urinária e usava fraldas, que Hysao ia buscar no Hospital Gastroclínica. O motorista assegurou ainda que Aguiar tinha ciúmes da mulher. Ele acrescentou que, nos meses antes do falecimento, comentava sempre com o patrão "porque algumas vezes a gente falava coisas para ele e ele perguntava se ele tinha feito aquilo, repetia e esquecia o que tinha falado comigo
perguntava tudo novamente", disse Mytsumori.
A herança não inclui o controle do Bradesco, que foi transferido para a Fundação Bradesco. A operação deixou o banco de fora da disputa familiar.

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