Justiça caça o ex-ditador
1998, seguramente, passará à História como o ano em que, pela primeira vez, um ex-ditador esteve ameaçado de enfrentar o julgamento por seus crimes. Augusto Pinochet Ugarte, durante muitos anos o todo-poderoso presidente-ditador do Chile, que tomou cuidados especiais quando teve de deixar o cargo para evitar ser punido pelos crimes cometidos durante a ditadura, enfrenta neste fim de ano a incerteza sobre o futuro. Ele que manteve, depois de deixar o comando político do país, a chefia do Exército e que também se auto-outorgou uma cadeira vitalícia no Senado do Chile, uma espécie de imunidade para o futuro, acabou surpreendido na Inglaterra.
Com problemas de saúde, Pinochet viajou a Londres para ser operado. E lá, no dia 16 de outubro, foi surpreendido com a aceitação, pela Justiça britânica, de um pedido de extradição feito pelo juíz espanhol Baltazar Garzón, que o queria julgar por crimes cometidos contra cidadãos do seu país, no tempo da ditadura chilena.
Começou então uma longa e complicada batalha judicial. Os advogados de Pinochet alegavam sua imunidade que foi inclusive reconhecida pela Justiça comum britânica. Mas a questão foi levada, em grau de recurso, à Câmara dos Lordes. E, então, em decisão até certo ponto inesperada, os Lordes decidiram que Pinochet não tinha imunidades. A decisão, por 3 votos a 2, provocou uma reação mundial. Os partidários de Pinochet se revoltaram. Os defensores dos direitos humanos, fizeram festa. Na sequência, o ministro do Interior britânico considerou que o processo de extradição poderia continuar. A Espanha apresentou seu caso. Outros países também entraram na fila para julgar Pinochet. Enquanto isto, seus advogados conseguiram uma vitória: sob a acusação de que um dos juízes da Câmara dos Lordes era suspeito, uma vez que envolvido com a Anistia Internacional, conseguiram anular a sentença inicial contra Pinochet. Mas não lograram liberta-lo. Agora, outra vez, a Câmara dos Lordes vai julgar a questão. Pode mudar a decisão, o que livraria Pinochet. Pode mante-la, o que dará sequência ao processo. De qualquer modo, o ex-ditador fica, preso, até o ano que vem, em Londres. Pode ser pouco. Mas, quem sabe, 99 não vá se tornar o ano em que os ditadores começarão a ser punidos, neste mundo, por seus muitos crimes!





