Londres, 27 (AE-ANSA) - Quase um ano depois da prisão do ex-ditador chileno Augusto Pinochet na capital britânica (16 de outubro), a Justiça britânica iniciou nesta segunda-feira (27) a fase final do processo de extradição do general chileno (ele não compareceu à audiência, alegando problemas de saude) para a Espanha, ouvindo as acusações de violação de direitos humanos, tortura e conspiração feitas, por escrito, pelo juiz espanhol Baltasar Garzón.
"As denúncias figuram entre as mais graves já feitas neste tribunal", disse o promotor Alun Jones antes da leitura de relatório de 35 páginas de Garzón que apresenta os métodos de tortura aplicados pelo regime militar chileno em seus opositores.
"Choques elétricos (principalmente nos órgãos genitais), interrogatórios intensos com as vítimas nuas, suspensão pelos pés ou pelas mãos, afogamento por imersão da cabeça na água, roleta russa, privação de alimentos, de sono e de água, golpes, mordidas de cães, detenção prolongada em celas sem luz, ameaça de morte e longa espera de pé (de até 48 horas) em paredões de fuzilamento, com olhos vendados, para provocar o pavor de execução iminente, eram alguns dos meios de tortura aplicados no Chile", enumerou o promotor, dirigindo-se ao presidente do tribunal, o juiz Ronald Bartle.
Contudo, por força de uma sentença da própria Justiça britânica, Pinochet só poderá ser julgado por crimes de tortura cometidos a partir de setembro de 1988 - data em que a Grã-Bretanha aderiu oficialmente à Convenção Internacional Contra Tortura.
Dessa forma, o ex-ditador só poderá ser julgado na Espanha por apenas uma acusação específica de tortura.
"Basta um único caso para justificar a extradição do senador vitalício", destacou o promotor Jones. "Você (Pinochet), no exércício do comando do Exército e com a ajuda de outros funcionários, torturou em 10 de setembro de 1989, Jorge Muzz Fernando com choques elétricos e depois o confinou em uma minúscula cela."
Sob protestos da defesa, o promotor britânico citou outros casos, lendo angustiada carta de Ana González, de 73 anos, que perdeu cinco membros da família durante a ditatura, entre os quais o marido e uma filha grávida. "Foram detidos e desapareceram."
O advogado do general, Clive Nicholls, contestou. Disse que Pinochet não "é responsável pelos espantosos atos descritos" no processo. "Estão acrescentando mais denúncias", ressaltou ele.
"Em certo sentido, o general Pinochet está com as mãos atadas às constas diante deste tribunal", insistiu o advogado. "Não existem provas para incriminá-lo; elas não estão ali", concluiu
apontando para a mesa do promotor.
Garzón arrolou Pinochet em 34 processos, incluindo o desaparecimento de 3.000 pessoas - entre as quais dezenas de espanhóis.
Separados por um cordão de isolamento mantido por policiais londrinos, partidários e opositores do ex-ditador trocaram insultos diante do tribunal. Os simpatizantes, em maior número (200), protestavam contra o julgamento, enquanto os opositores (30) aplaudiam.

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