Curitiba- O escritor curitibano Austregésilo Carrano Bueno poderá vender normalmente o livro ''Canto dos Malditos'' nas livrarias de Curitiba, com conteúdo integral publicado na versão original. A decisão foi tomada pelo juiz da 8 Vara Cível de Curitiba, José Roberto Pinto Filho, no último dia 2 de fevereiro. A batalha judicial, que começou em abril de 2002, teve como autores do processo os familiares do médico psiquiátrico Alô Ticolaut Guimarães, citado no livro. Carrano teria sido internado aos 17 anos em hospícios paranaenses, onde teria sido torturado. Os familiares alegam que o autor tenta difamar um médico já morto e que não tem como defender sua honra e trabalho.
De acordo com o despacho judicial, uma obra literária, diferente de matéria jornalística, não tem compromisso com os fatos reais, sendo uma livre manifestação do pensamento do autor. ''A sentença está bem embasada. Um livro realmente não tem qualquer compromisso com a verdade, pode ter sido fruto ou não da imaginação do autor. Portanto, não pode ferir a honra ou trabalho alheio'', afirmou o advogado Jorge Krugger. O juiz estabelece ainda que os autores do processo paguem as custas judiciais e os honorários advocatícios, estabelecidos em R$ 2,5 mil.
Ainda cabe recurso da decisão judicial. Canto dos Malditos foi lançado em 1990. De lá para cá, ele vendeu cerca de 50 mil exemplares e foi a inspiração do filme ''Bicho de Sete Cabeças'', com roteiro de Luiz Bolognesi e direção de Laís Bodansky. No elenco, estrelaram atores consagrados como Cássia Kiss e Othon Bastos, Caco Ciocler, Gero Camilo e o protagonista Rodrigo Santoro, que interpreta o personagem principal que foi internado pelo pai num manicômio. ''Eu vivi isso e fui internado como se fosse louco pelo meu pai porque fui flagrado fumando maconha. Agora luto pela mudança do sistema psiquiátrico brasileiro'', disse Carrano.
A luta do escritor foi premiada em Brasília em maio do ano passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Carrano é atualmente membro do conselho nacional da reforma psiquiátria, vinculado ao Ministério da Saúde. Mas não deixou de lado a veia artística. Em abril, ele deverá lançar o curta metragem ''Felicidade'', um diálogo entre dois atores (ele é um deles) que atuam nus em cima de uma pedra e filosofam sobre o que é ser feliz.
Em maio, ele lança mais um livro intitulado de ''Filhas da Noite''. A obra irá contar a história de uma prostituta que se envolve com um garoto de programa. Assuntos como drogas, homossexualismo, prostituição e comercialização sexual infantil são tratados no livro.
Os herdeiros do médico psiquiátrico não foram localizados para comentar a decisão judicial.

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