Justiça americana intima brasileiros suspeitos de ligação com tráfico
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segunda-feira, 10 de abril de 2000
Por Renan Antunes de Oliveira, especial para a AE 
Nova York, 11 (AE) - Os promotores Joe Capone e Steven Piekin, que investigam a lavagem de dinheiro do narcotráfico por dois empresários brasileiros presos na Flórida, intimaram quatro brasileiros residentes nos EUA a prestar depoimento na semana que vem. A comerciária ¶ngela Rodrigues, a sacoleira Tânia Marah (que está desaparecida), um garçom não identificado do restaurante Via Brasil, em Nova York, e um certo Ivo Cunha terão de explicar por que seus nomes são citados nas conversas telefônicas dos empresários Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz Junior, que estão detidos em Miami desde o último dia 31 sob a acusação de lavarem dinheiro do narcotráfico.
Capone e Piekin querem ouvir também o doleiro James Jamil Deegan sobre o chamado dossiê Cayman, uma coleção de documentos aparentemente forjados com o objetivo de causar embaraços para o presidente Fernando Henrique Cardoso denunciando a existência de suspostas contas bancárias que ele e alguns de seus principais aliados e membros de seu gabinete teriam no exterior. Os promotores intimaram Jamil depois de ouvirem as fitas de suas conversas com Barros e Ferraz, na qual o dossiê é amplamente citado. Antecipando o que dirá às autoridades americanas, com quem tem encontro marcado na segunda-feira, Jamil revelou ontem ao Estado que o dossiê foi criado por um advogado das Ilhas Cayman, a pedido de Oscar de Barros.
"Agora que eles (Barros e Ferraz) estão presos, eu posso falar", disse. No início desta semana ele negava que soubesse a autoria do dossiê. "O objetivo era ganhar dinheiro com a papelada." Segundo Deegan, um brasileiro de 65 anos, natural de Rio Claro, que é naturalizado americano, "na campanha eleitoral de 1998, o Oscar de Barros recebeu US$ 500 mil do Francisco Rossi (ex-candidato ao governo do Estado pelo PDT) de adiantamento para obter toda a documentação".
"O combinado era de Rossi pagar US$ 2,5 milhões pelos papéis", afirmou. Como o então candidato do PDT se recusou a pagar os US$ 2 milhões restantes, o dossiê foi oferecido ao presidente do PDT, Leonel Brizola, que recusou a oferta sob a alegação de que ganharia a eleição (para o governo do Rio) de qualquer maneira. Jamil, que se apresenta como "trader", ou negociante, afirmou também que Barros e Ferraz voltaram a entrar em contato com ele cerca de três meses atrás, para oferecer um dossiê "mais completo".
Entre 1990 e 1994, ele cumpriu pena na penitenciária federal de Alentown, na Pensilvânia, depois de ser apanhado com US$ 1 milhão do narcotráfico colombiano. "Eu era apenas uma mula", disse, referindo-se aos operadores que fazem o repasse da droga. Jamil diz que já acertou suas contas com a Justiça, não se arrepende de nada do que fez, nada deve no caso Barros/Ferraz e está colaborando com as investigações. Um homem de sorriso fácil
gestos elegantes e conversa bem-articulada, ele recebeu a Agência Estado em seu escritório em Manhattan hoje durante uma hora, no fim da manhã, vestido com um impecável terno azul. Jamil negou que esteja envolvido com o desvio de verba do prédio do TRT em São Paulo.
Quanto aos quatro brasileiros já intimados por Capone e Pieken
a suspeita é que eles agiram como laranjas nas negociações de Barros e Ferraz com o narcotráfico. Os promotores chegaram a esses nomes a partir da escuta telefônica que fizeram de Barros e Ferraz com empresários, políticos e residentes brasileiros nos Estados Unidos. A existência dessas gravações sugere que existe farto material potencial para alimentar o projeto de intensificação da cooperação entre os govenos do hemisfério na área do combate aos crimes financeiros transnacionais, acertado em recente reunião dos ministros das Finanças das Américas em Cancun.
Os promotores também devem entrar em contato com o advogado Vanderley Minitti, residente em São Paulo, que, segundo as conversas telefônicas, teria informações que comprovariam os negócios ilícitos de Ferraz. O empresário é filho do ex-presidente do Instituto Brasileiro do Café, José Maria Teixeira Ferraz.


