São Paulo, 23 (AE) - O dólar continuou a cair hoje com a conclusão da oferta de títulos cambiais pelo Banco Central (BC). A moeda norte-americana chegou a cair até 1,3% para a mínima de R$ 1,86, enquanto o BC vendia R$ 2 bilhões em títulos indexados ao dólar. No fim do dia, entretanto, o dólar reduziu a queda e fechou a R$ 1,874, em baixa de 0,58% ante a sexta-feira. A queda mais discreta no fim do dia mostra que o mercado continua cauteloso.
O BC vendeu R$ 2 bilhões em títulos cambiais com vencimento em fevereiro, em dois leilões: o primeiro, de R$ 1,2 bilhão, pagou juros de 12%; o segundo, de R$ 700 milhões, pagou juros de 11,5%. A oferta de ontem corresponde às sobras do leilão de R$ 3 bilhões da sexta-feira. Amanhã, mais um lote de R$ 1 bilhão em cambiais será vendido.
Além dos leilões do BC, o dólar também caiu por conta do otimismo no mercado externo. A Bolsa de Nova York subiu 1,79% e a Bovespa avançou 0,37%, movimentando R$ 416 milhões. É grande a expectativa em relação à reunião de hoje do Federal Reserve (Fed
o banco central dos EUA); a maior parte dos analistas acredita que o Fed decida elevar os juros primários nos EUA em 0,25 ponto percentual.
Embora tenha sido eficiente para acalmar o mercado (considerando o fechamento de ontem, o dólar caiu 6% em relação à máxima de R$ 1,996 na sexta-feira), a volta dos leilões de papéis cambiais contraria a estratégia que o BC adotou até junho na gestão da dívida pública. O BC vinha tentando aumentar a participação dos papéis prefixados e reduzir o porcentual de títulos cambiais e pós-fixados, que são papéis de maior risco. No caso específico da dívida cambial, o BC vinha emitindo apenas cerca de 80% do total dos vencimentos. Mesmo nos momentos de maior tranquilidade, a mudança do perfil da dívida pública vinha acontecendo muito lentamente; agora, a tendência é novamente de crescimento da participação dos pós-fixados e cambiais.
"Desde a crise da Rússia não houve um período longo de tranquilidade para reverter o perfil da dívida", diz o economista do banco ING Barings, Mauro Schneider. Cálculos do mercado (os últimos dados oficiais são de junho) estimam que os papéis pós-fixados representam hoje cerca de 61% da dívida e os títulos cambiais, 23%, contra apenas 11% em papéis prefixados. Os papéis cambiais já representaram mais - 29,9% em fevereiro - e os pós-fixados já chegaram a até 69% do total da dívida. Entretanto, a nova crise de confiança pode fazer com que os porcentuais atuais voltem a crescer.
Para Luiz Fernando Lopes, economista do Chase Manhattan, a venda de papéis cambiais, apesar do efeito no endividamento, é a melhor alternativa de intervenção no mercado de câmbio agora. "Vender dólares no mercado à vista poderia significar um risco maior de perda de reservas; vender contratos futuros poderia ser negativo por distorcer as expectativas do mercado, além disso, essa última alternativa está proibida pelo acordo com o FMI", diz Lopes. Ele lembra ainda que, num regime de câmbio flutuante, não necessariamente a venda de títulos cambiais significa prejuízo para o BC. Se o dólar cair, o comprador perderá dinheiro.

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