São Paulo, 26 (AE) - A taxa de juros real da economia, atualmente na faixa de 20% ao ano e que chegou a 30% em 1998, deve fechar 1999 oscilando entre 10% e 15% e essa é a condição necessária para que o ajuste fiscal se torne factível e o País retome o crescimento econômico a partir do ano que vem. A opinião é do ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas, o economista Carlos Geraldo Langoni.
"Sem a queda do juro real, as contas públicas não fecham", afirmou ele hoje, em São Paulo, a uma platéia com cerca de cem empresários do setor supermercadista, durante palestra sobre as perspectivas da economia brasileira promovida pela Associação Paulista de Supermercados (Apas).
Ele ressaltou que a queda no juro real é fundamental para que o mercado perceba que a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) é estável e, com isso, haja uma reversão do cenário negativo.
Para Langoni, a queda do juros nominais sinalizada ontem (24) pelo governo, de 45% para 42% ao ano, resultou do fato de que a inflação, já neste primeiro semestre, não terá um comportamento explosivo e sim mais favorável que o esperado.
"Hoje o risco cambial é mais baixo e a tendência é o dólar ficar cotado entre R$ 1,70 e R$ 1,80", previu ele, assinalando que o financiamento do balanço de pagamentos está equacionado com a entrada de recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI), a retomada das linhas de crédito de curto prazo e as expectativas de que, neste ano, entrarão US$ 17 bilhões de investimentos diretos no País.
Nas suas contas, a necessidade de financiamento do setor público para este ano é de US$ 18 bilhões. "Esses números resolvem o problema, a não ser que ocorra algo imprevisível." Dentre os riscos no cenário externo, ele aponta a desaceleração da economia norteamericana, desajustes no sistema financeiro da China continental e turbulências na América Latina.
Já os riscos internos, dizem respeito a falhas na implementação do ajuste fiscal e a volta da indexação, que, na sua avaliação, foi o que fez com que a inflação no México aumentasse depois da crise cambial, diferentemente dos países asiáticos, onde não existiam esses mecanismos de reajustes automáticos de preços e salários.
"Não vejo riscos de explosão inflacionária", disse Langoni, destacando que o grande teste para o governo é o reajuste do salário mínimo, a partir de maio. Mesmo o governo concedendo o reajuste menor possível, na faixa de 5%, esse aumento irá ter um impacto adicional nas contas públicas, o que deve exigir um corte extra nas despesas, argumentou.
Setores - Langoni disse que o Produto Interno Bruto (PIB) deverá ter uma retração de 3% a 4% em 1999, com comportamento diferenciado entre o primeiro e o segundo semestre e os vários setores da economia. "O primeiro semestre será de recessão profunda e o segundo, de recuperação."
O setor bens duráveis, dependente de crédito, vai continuar com desempenho muito pobre, apesar de o automobilístico ter ganho um impulso adicional com a redução de impostos.
Já os bens de capital vão crescer menos que o previsto, mas continuarão com um certo espaço por causa do investimentos programados nos segmentos privatizados, como o de telecomunicações e o energético.
Nos supermercados, disse Langoni, que englobam os bens não-duráveis, a perspectiva é de um crescimento pequeno, sem oscilações bruscas, porque esse setor reflete o consumo de artigos básicos de primeira necessidade que são menos afetados em períodos de recessão.

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