Juro menor força bancos a rever estratégia
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sexta-feira, 17 de setembro de 1999
por Tatiana Bautzer 
São Paulo, 18 (AE) - A queda dos juros cria um desafio para os bancos no ano que vem: manter a rentabilidade apesar da queda de receita com títulos públicos. A saída deverá ser a expansão do crédito. A pressão por redução dos custos deve ainda incentivar nova onda de fusões e aquisições no setor.
O retorno global da dívida pública previsto pelo Orçamento do ano 2000 é de 13,5% - o que corresponderia a um juro de curto prazo (Selic) médio de cerca de 16%, historicamente baixo. Só em 99, a taxa Selic já caiu pela metade
recuando de um pico de 45% para os atuais 19,5%.
Nos últimos dois anos, foi mais rentável para os bancos comprar títulos públicos do que emprestar recursos. Aproveitando as elevações de juros durante as crises internacionais, os bancos obtiveram gordos lucros com papéis pós-fixados e deixaram de lado o crédito, temendo os problemas provocados pela inadimplência. O sócio da Austin Asis, Alberto Borges Mathias, estima que no ano passado metade das receitas dos bancos tenha vindo de crédito e pouco mais de 40% do rendimento de operações com títulos. Em 99, além do ganho com juro, a desvalorização do real reforçou os resultados dos bancos que apostaram na alta do dólar.
O cenário vai mudar radicalmente. Para o analista do banco Matrix, Rodrigo Bresser, as instituições, principalmente as de varejo, terão de emprestar mais para manter a rentabilidade. Até o fim do ano, a retomada do crédito não deve ser muito intensa, por causa do ritmo lento da economia e índices de inadimplência ainda altos. A expectativa é de um crescimento maior no ano que vem. "Neste ano, os bancos já conseguiram todo o rendimento que queriam com as operações na virada do câmbio; mas no ano que vem precisarão expandir o crédito e concorrer para emprestar", diz Mathias, da Austin Asis.
O crédito só deverá crescer mesmo se for confirmado o cenário positivo traçado para o ano que vem: crescimento econômico, inflação baixa e menor inadimplência.
Até agora, apesar dos sinais de recuperação econômica e da queda dos juros, ainda não houve grande reação na carteira dos bancos. No Bradesco, o total de empréstimos está estável em termos reais desde o início do ano, segundo o vice-presidente do conselho, Antonio Bornia. Bornia prevê pequena elevação até o fim do ano e um aumento maior no ano que vem, mas ainda assim cauteloso. "O crescimento deve ser gradual", diz Bornia.
No Banco Itaú, entre dezembro e junho a carteira de créditos cresceu 7,3%, atingindo R$ 17,2 bilhões, mesmo assim pequena em relação ao ativo total, de R$ 56,2 bilhões. Um diretor do Itaú explica que a demanda por parte das empresas ainda está fraca. Para o diretor do Banco Real, Edson Costa, as pessoas físicas também estão conservadoras para tomar crédito. O banco registra crescimento real de 15% na carteira de crédito neste ano, e é um dos mais ousados na prevista expansão no ano 2000. Costa espera que a carteira cresça entre 50% e 70% em 12 meses.
Os dados globais do Banco Central confirmam um crescimento lento até agora. Entre dezembro do ano passado e julho deste ano, a carteira de crédito teve um crescimento de 2 2%, atingindo R$ 260,5 bilhões. Os créditos para pessoa física aumentaram 3,8% até julho.
Cautela - A dúvida é se a expansão do crédito não traria de volta os créditos podres que atormentaram os bancos depois da explosão do consumo no início do Plano Real. Os executivos acham que houve uma evolução muito grande na concessão de crédito em quatro anos. Segundo Costa, do Real, hoje os bancos oferecem produtos mais adequados à finalidade do empréstimo, reduzindo a possibilidade de inadimplência. Os bancos têm também mais instrumentos de controle de risco. Um deles é a central de risco do BC, que já mostra hoje o total de endividamento dos clientes em vários bancos. Outra iniciativa é o "bureau positivo", produto que deve estar disponível em breve com informações sobre a conduta dos clientes (por exemplo, datas de pagamento de créditos). Espera-se que a expansão do crédito ocorra simultaneamente à redução de margens operacionais dos bancos. Hoje, o ganho dos bancos em operações de crédito é alto, não só pela inadimplência e impostos, mas também porque o baixo volume de empréstimos cria a necessidade de ganho maior em cada operação para cobrir custos. Um estudo internacional mostra que a margem dos bancos brasileiros ainda é muito elevada.
A queda das margens deverá estimular uma nova onda de fusões e aquisições no setor. Mathias, da Austin, prevê que os dez maiores bancos de varejo serão reduzidos a três ou quatro. Executivos de bancos estrangeiros acreditam que o número total de bancos no Brasil cairá de 200 para algo entre 50 ou 60.
Bolsa - Outra mudança expressiva deve ocorrer nos investimentos. Com o recuo no rendimento dos fundos de renda fixa, a tendência é que os investidores procurem aplicar nas bolsas de valores uma parte maior dos recursos para conseguir uma rentabilidade maior. Hoje, os fundos de renda fixa têm cerca de R$ 100 bilhões de patrimônio, ante R$ 4,7 bilhões em fundos de ações e R$ 1,4 bilhão em fundos balanceados (que combinam investimentos em renda fixa e variável).
Para Davi Gottlieb, diretor da Deutsche Bank Investimentos, os fundos de renda variável podem voltar a atingir, no médio prazo, 15% do total da indústria, a exemplo do que ocorreu no primeiro semestre de 97.
Os próprios fundos de renda fixa também podem mudar, aplicando em papéis de prazo mais longo ou títulos privados como debêntures e commercial papers de empresas, que tendem a render mais que os papéis do governo.


