Juro e câmbio caem, mas terreno é movediço
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 1999
por Angela Bittencourt e euipe da Broadcast 
São Paulo, 10 (AE) - Uma súbita reversão pegou em cheio os dois preços mais sensíveis da economia hoje: o juro e o câmbio. Após dias de altas consecutivas, nesta terça-feira o dólar chegou a subir 2,6%, batendo em R$ 1,97, e a escorregar a R$ 1,90. É precipitado afirmar que a moeda é vítima da exaustão, até porque o volume de contratos negociados no mercado futuro que mantém estreita relação com as operações à vista caiu do patamar de 37 mil para 17 mil em praticamente uma semana. Mas, não há dúvida de que o enfraquecimento dos preços dos repasses interbancários e futuro durante os negócios contagiou o comportamento do juro, que declinou em todos os segmentos. A trajetória não escapou da influência das operações do mercado aberto, onde o Banco Central manteve até ontem o custo primário do dinheiro fincado em 39% ao ano. O Tesouro Nacional, que no último mês vinha reduzindo o lote de títulos oferecidos em leilão, foi bem sucedido na venda de NTN-S, títulos híbridos que rendem juro pré e pós-fixado. Ofereceu R$ 2 bilhões - o dobro das últimas semanas - e vendeu tudo à taxa máxima de 38,90% ao ano. Este lote de papéis de 364 dias, que entra hoje em circulação, é o maior colocado à venda e absorvido pelo mercado desde 12 de janeiro e a taxa de retorno é, em contrapartida, a menor observada também em praticamente um mês. No futuro da BM&F
os investidores iniciaram a migração de posições, saltando dos contratos de juros com vencimento no início de março para a posição de abril, cujo volume negociado cresceu 85,2% de segunda para terça-feira. Ao contrário do que se observa com o futuro de dólar, o futuro de DI já sofreu um esvaziamento em volume negociado, mas já tomou fôlego em ritmo consistente de 55 mil contratos. O mercado futuro também está esticando prazos de negociação de posições e, embora de expressão muito pequena, já há projeção de custo efetivo de dinheiro até o mês de maio. Não há ilusão de que o País viverá, neste primeiro semestre, de dinheiro barato, mas, na última semana de janeiro, o mercado esperava conviver com dinheiro bem mais caro. Agora, em fevereiro, a correção das taxas vem ocorrendo mais rapidamente. A média mensal dos primeiros três vencimentos de DI - março, abril e maio - superava 53% ao ano na sexta-feira e, ontem, fazia baldeação pouco acima de 48%. A expectativa é de que o juro prossiga em sua trajetória - para baixo.
O comportamento do juro e do câmbio anima os mais otimistas, mas ainda não convence os mais realistas. Estes acreditam que o juro ficará melhor definido, após a posse do presidente indicado para o Banco Central Armínio Fraga. Também consideram improvável que o dólar encontre ponto de equilíbrio a curtíssimo prazo sem que esteja definida e esclarecida a regra de intervenção do BC no mercado de câmbio e, também, o movimento dos exportadores. O tesoureiro de um dos maiores bancos europeus instalados no Brasil alerta que ainda é muito cedo para acreditar que os exportadores estão retornando ao mercado, estimulados pelo ganho embutido na taxa de câmbio. O ganho é um fato, e até por esta razão este ganho é conhecido e calculado com extrema atenção no exterior pelos potenciais importadores de produtos brasileiros. Em apenas três semanas de liberação do câmbio no País, explica o tesoureiro, não é razoável imaginar que exportadores brasileiros e importadores estrangeiros já chegaram a resultados precisos e indiscutíveis de preços para mercadorias, inclusive, porque a alta volatilidade da moeda nessas três semanas estaria dificultando a realização de projeções pelas empresas em relação ao custo/benefício da nova taxa de câmbio. Por tabela, ainda é arriscado fazer previsões sobre a evolução da balança comercial, que, todos esperam, marque pontos importantes a favor da redução da dependência do País do fluxo de capitais. Um exemplo citado pelo tesoureiro do banco europeu é o das exportações de commodities agrícolas, de grande relevância na pauta brasileira, mas cuja produção depende de insumos importados que, no momento, estariam 50% mais caros apenas em função do ajuste cambial. Neste sentido, as exportações de soja poderão ser exemplares este ano.
Nesta terça-feira, o governo tomou uma decisão econômica e política importante: optou por não taxar as exportações de soja e café, durante o encontro realizado entre representantes do Conselho Nacional da Agricultura e o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Cláudio Considera. A importância econômica reside, no mínimo, no fato de o governo preservar a rentabilidade das exportações. A importância política da decisão é o governo evitar arranjar encrenca com a populosa bancada ruralista do Congresso, que vinha ameaçando juntar-se à oposição e somar votos contra a aprovação da emenda constitucional da CPMF que deverá ser analisada em Comissão Especial a ser instituída na Câmara dos Deputados a partir do dia 22. As exportações de soja, particularmente, também podem frustrar expectativas quanto às receitas que produzirão, dependendo do comportamento dos preços internacionais. Ontem, os contratos de soja em grão com vencimento em março fecharam no menor preço em onze anos na Bolsa de Chicago. Também sofreram pressão baixista os contratos de farelo e óleo de soja em decorrência da expectativa com o relatório de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), que será divulgado hoje. A expectativa corrente é de que o relatório confirme aumento da produção do Brasil e da Argentina em 500 mil toneladas cada e reduza a projeção de esmagamento e exportações dos EUA no período 98/99. É necessário reconhecer, porém, que o governo está agindo em várias frentes de forma a evitar que o País desabe numa recessão sem precedentes, procurando preservar cadeias produtivas de longo alcance. Este é o caso do setor automobilístico, que reúne-se hoje no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio com os sindicatos dos metalúrgicos de São Paulo para discutir a proposta de redução da alíquota do IPI. O governo vem negociando a redução do imposto, levando em conta a perspectiva de uma dupla contrapartida: a manutenção dos empregos pelas montadoras e redução dos preços dos automóveis, sobretudo, os populares que correspondem a 65% do mercado.
A favor do restabelecimento da calmaria está a perspectiva, considerada certeza, de que o presidente indicado para o Banco Central, Armínio Fraga, começa a definir os indicados à sua diretoria, e melhora o humor do mercado o fato de os primeiros nomes citados ontem pertencerem ao quadro de funcionários de carreira da instituição. É dado como certo que Luiz Carlos Alvarez, atual chefe do Departamento de Fiscalização do banco, assumirá a Diretoria de Fiscalização. Edson Bernardes, funcionário aposentado do BC, deve assumir a Diretoria de Administração. Paolo Zaghen deve permanecer no comando da Diretoria de Normas e Sérgio Darcy, na Diretoria de Reestruturação dos Bancos Estaduais. Começa, portanto, a contagem regressiva para as duas diretorias mais espinhosas da casa: a de Assuntos Internacionais e de Política Monetária. Fraga poderá prestar um serviço ao País se conseguir anunciar os possíveis titulares para esses cargos ainda nesta semana, porque a ressaca do longo feriado do Carnaval pode aplacar a irritação de eventuais desafetos ou movimentos defensivos do mercado, caso os indicados despertem polêmica. No flanco político, o presidente FHC conquistou pontos de vantagem ontem, graças ao cordial encontro entre os ministros da Fazenda, Previdência e Comunicações com os governadores dos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Alagoas. Embora não conclusivo, o encontro foi considerado produtivo e no final das contas, os governadores que insistem em conversar com o Presidente da República terão seu pleito encaminhado ainda hoje pelo ministro Pimenta da Veiga.
O presidente FHC, que não estava disposto a reunir-se com os governadores para restringir a conversa à renegociação das dívidas estaduais, conseguiu obter, em contrapartida, uma espécie de compromisso de que as discussões serão abrangentes, abordando além da dívida dos estados, assuntos como a "guerra fiscal" e a Lei Kandir, que isenta as exportações de ICMS e afeta a receita dos governos estaduais. De Corumbá, onde participou da inauguração da primeira fase do gasoduto Brasil-Bolívia, o presidente FHC deu uma força às negociações travadas em Brasília, afirmando que se existir uma agenda construtiva, positiva, ele poderá vir a conversar com todos os governadores - em grupo ou individualmente. No começo da noite, outro gesto de boa vontade com os governadores da oposição. Ronaldo Lessa, governador de Alagoas, confirmou o desbloqueio de R$ 22 milhões de recursos do estado que estavam retidos pelo governo federal e que viabilizarão, nesta quarta-feira, o pagamento da folha de salários dos servidores públicos. De mais preocupante ficou para hoje a expectativa com o resgate de US$ 100 milhões de eurobônus lançados em 94 pelo governo de Minas Gerais. Os títulos estão vencendo nesta quarta-feira e, ontem no início da noite, o governador Itamar Franco divulgou nota oficial informando que autorizou o Tesouro Nacional a sacar recursos da conta vinculada mantida no Banco do Brasil para o pagamento dos papéis aos investidores externos. A estimativa, porém, é de que os recursos da conta vinculada correspondam hoje a cerca de US$ 49 milhões, devendo, portanto, à União participar com quase US$ 60 milhões para quitar o débito de US$ 108 milhões.


